Bancários do BB e da Caixa abrem debates da Campanha Salarial com etapa estadual dos congressos específicos

Uma mesa de debates unificada marcou a abertura dos congressos estaduais dos bancários do Banco do Brasil e da Caixa na noite desta quarta-feira, 27, no Centro de Treinamento Dom João Batista, em Vitória.  Goretti Barone, diretora do Sindibancários/ES e funcionária do BB, deu as boas-vindas aos presentes. “Esse é um momento muito rico para […]

Uma mesa de debates unificada marcou a abertura dos congressos estaduais dos bancários do Banco do Brasil e da Caixa na noite desta quarta-feira, 27, no Centro de Treinamento Dom João Batista, em Vitória. 

Goretti Barone, diretora do Sindibancários/ES e funcionária do BB, deu as boas-vindas aos presentes. “Esse é um momento muito rico para a categoria, momento para fortalecer nossa organização e nossa resistência”, disse. Já Renata Garcia, empregada da Caixa e também diretora do Sindicato, destacou a importância da atividade na mobilização para a Campanha Nacional dos Bancários. “Estamos dando a largada para a nossa Campanha Salarial, e é nela que unificamos nossas forças, lutamos, e temos a oportunidade de nos ver enquanto categoria e enquanto classe, por isso a importância de estarmos aqui”.

Participaram da abertura o professor de Ciência Política da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), Milton Pinheiro, e a socióloga do Trabalho e pós-doutoranda em Política Social da Ufes, Lívia Moraes.

Milton  fez uma análise da conjuntura política e econômica do país destacando os elementos da crise mundial do capitalismo, que, segundo ele, é uma crise sistêmica que ganha maior visibilidade e apelo a partir do ápice da crise econômica.

“O modo de produção capitalista, determinado pela lógica da mercadoria, pela venda força de trabalho, pela acumulação de capital e pelo predomínio de uma classe social que se apodera do Estado, se encontra em processo de decadência. Isso não é uma situação particular do momento, mas um longo processo social, onde as características típicas da sociedade capitalista se encontram em crise. Esse processo, no entanto, só é visto através no epicentro do fenômeno da crise.”

Para Milton, “a forma como o capital expõe a crise e tenta ganhar o comprometimento de todos com a solução desse problema é um mito atrasado e sem sentido, porque joga para a sociedade a responsabilidade da crise econômica, que é uma particularidade de uma crise sistêmica do capital”. É esse discurso, segundo ele, que vai justificar as medidas de austeridade como o ajuste fiscal no Brasil.   

O professor destacou também a forma como o capitalismo, a partir da sua dificuldade de reprodução,  avança para a retirada de direitos sociais e sobre estrutura do Estado.  “O modo de produção capitalista mudou na sua forma de existir, na sua relação com o Estado, na sua forma de produzir e na forma de gerir o modelo de sociedade.  Há uma modificação da subjetividade  do trabalhador, com o fortalecimento do individualismo. Além disso, temos o Estado agindo no sentido de atender as demandas do capital. É o que acontece com o ajuste do tesouro para fazer o pagamento da dívida pública, que consome quase metade do orçamento brasileiro”, salienta Pinheiro.

Terceirização

O PL 4330, que tramita no senado sob o nome PLC 30/2015, também foi pauta da mesa de abertura. A palestrante Lívia Moraes falou sobre os impactos da tercerização para os trabalhadores e sobre as mudanças que o PL 4330 pode trazer.

De acordo com Lívia, nos últimos 25 anos a terceirização se tornou o mais importante recurso das empresas para gestão e redução de custo da força de trabalho. No serviço público, ela aumenta a partir do ano dois mil, com a implementação da lei de responsabilidade fiscal, que limita os gastos dos órgãos públicos com pessoal. 

“O aumento da terceirização nesse setor está ligado também ao pensamento de ineficiência do serviço público e do uso político da contratação na iniciativa privada, contratando, por exemplo,  em época de eleição e demitindo logo depois”, complementa Lívia.

A conjuntura foi outro elemento importante para a disseminação do trabalho terceirizado. “O neoliberalismo deu o suporte ideológico para que as mudanças ocorressem. A  partir do Toyotismo o modo de produção mudou; as empresas foram ‘enxugadas’ e, com base no discurso de liberdade no trabalho, as jornadas se tornaram flexíveis; foram impostas as políticas de metas, o banco de horas e o incentivo às competências individuais, todos elementos que serviram para intensificar a exploração do trabalhador.”  

A socióloga destacou também os impactos econômicos, sociais e políticos da terceirização. “Em termos econômicos, a terceirização gera subemprego, contratações sem carteira de trabalho, perda de benefícios, mudanças frequentes de local e horário de trabalho e perda salarial. Em média, um terceirizado ganha 25% a menos que um contratado. Há ainda a ampliação da jornada de trabalho — enquanto  um contratado tem jornada semanal de 40 horas, em média, o terceirizado trabalha 43 horas. Sem falar na pressão, no risco de demissão, de acidentes e da rotatividade, e nos impactos de todos esses fatores na saúde do trabalhador.”

No aspecto político, entre as principais consequências está a fragmentação da classe e o enfraquecimento das lutas das categorias. “Com a terceirização, no mesmo espaço de trabalho existem empregados de várias empresas, com sindicatos diferentes. Há um estranhamento dos trabalhadores e um aumento do medo e da insegurança, o que desmobiliza a luta”.

Para Lívia, caso o PL 4330 seja aprovado, esse quadro de precarização  do trabalho tende a se ampliar de forma indiscriminada. “Se aprovada a terceirização da atividade fim, como propõe o PL, todos os problemas que já vêm ocorrendo nas atividades meio vão se espalhar”.

 Entre as mudanças propostas pelo PL, ela destaca a questão da representação sindical. “O projeto aprovado na Câmara estabelece que, se o terceirizado for do mesmo ramo que o trabalhador da empresa principal, ele poderá ser representado pelo  sindicato contratante oficial, porém a empresa terceirizada não precisará obedecer a convenção coletiva, o que não assegura ao trabalhador terceirizado os direitos conquistados pela categoria”.   

Terceirização nos bancos

Durante a exposição, Lívia chamou atenção para o aumento da tercerização no sistema financeiro nacional, que teria chegado com força nos bancos a partir da década de 90 nas áreas de tesouraria, retaguarda e compensação. “Nos anos 90 haviam 732 mil trabalhadores no ramo financeiro, e atualmente são apenas 400 mil sob a mesma Convenção Coletiva. Situações que antes eram inexistentes, como o trabalho por hora, em que o empregado só trabalha nos horários de pico, passaram a ser comuns”, conclui.

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