Bancários e bancárias debatem violência contra a mulher durante o V Congresso Estadual da categoria.

“A violência contra as mulheres na sociedade e no trabalho bancário”. Esse foi o tema do primeiro painel realizado na manhã de sábado, 27, durante o V Congresso Estadual dos Bancários e das Bancárias. As palestrantes foram a mestra em Estudos Interdisciplinares sobre Mulher, Gênero e Feminismo (PPGNEIM/UFBA) e doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em […]

“A violência contra as mulheres na sociedade e no trabalho bancário”. Esse foi o tema do primeiro painel realizado na manhã de sábado, 27, durante o V Congresso Estadual dos Bancários e das Bancárias. As palestrantes foram a mestra em Estudos Interdisciplinares sobre Mulher, Gênero e Feminismo (PPGNEIM/UFBA) e doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS/UFBA); Zilmar Alverita, e a bancária do Santander, integrante do Coletivo de Gênero, Raça e Orientação Sexual da Contraf e ex-secretária de mulheres dessa confederação, Deise Recoaro.

Zilmar trouxe a reflexão sobre a violência contra a mulher e as formas de combatê-la. De acordo com ela, o sistema capitalista aprofunda a opressão e desigualdades, impondo às mulheres o trabalho reprodutivo e aos homens o produtivo. Ele diferencia o lugar do masculino e o do feminino, além de hierarquizar, colocando o homem em posição de vantagem. “A primeira opressão de classe vem da opressão do sexo feminino pelo masculino”, diz a palestrante.

Ela destaca, ainda, que o trabalho invisibilizado das mulheres é que possibilita a manutenção do trabalho assalariado. “A disponibilidade total das mulheres para cuidar dos filhos permite, por exemplo, que os homens possam aceitar uma transferência para outra cidade por motivos profissionais, pois têm a mulher para se dedicar à criação dos filhos”, explica Zilmar, que defende que não basta nivelar direitos, sendo necessário também igualar deveres.

“Essa igualdade de deveres deve se refletir em aspectos como a criação dos filhos e divisão das tarefas domésticas”, diz. A palestrante afirma que a desigualdade entre os sexos coloca obstáculos para as mulheres no mundo do trabalho. “Se uma mulher falta ao trabalho porque o filho está doente, num contexto de crise certamente ela estará no topo da lista de demissão. E essa realidade não é vivida pelo homem”, explica Zilmar, que afirma ser a desigualdade sexual do trabalho na empresa um reflexo da divisão na sociedade.

Além da divisão sexual do trabalho, a palestrante destacou a divisão sexual do poder, que diz respeito à exclusão da mulher nos espaços de poder e discussão, como na Câmara dos Deputados, onde as mulheres correspondem a cerca de 10% dos parlamentares, e à divisão sexual do saber, que consiste, por exemplo, na crença de que o saber visto como feminino não exige conhecimentos técnicos.

Realidade da mulher na categoria bancária

A realidade da mulher na categoria bancária foi o tema debatido por Deise Recoaro, que iniciou sua fala trazendo a reflexão sobre violência contra a mulher. “Quando se fala em violência pensa-se em violência doméstica, aquela que acontece no âmbito privado. Porém, existe também a violência institucional, que vai além das quatro paredes”. Para exemplificar isso, a palestrante citou a situação vivida por uma bancária do Itaú, em Tocantins, que sofreu um aborto espontâneo no ambiente de trabalho, foi obrigada a guardar o feto em uma sacola e continuar seu trabalho até o momento de fechar a tesouraria.

Deise trouxe alguns dados do II Censo da Diversidade, conquista da categoria nas negociações feitas na mesa de Igualdade de Oportunidades. A pesquisa, feita pela Federação Nacional dos Bancos (Fenaban), mostra a grande desigualdade entre homens e mulheres na categoria bancária. Segundo a integrante do Coletivo de Gênero, Raça e Orientação Sexual da Contraf, as mulheres correspondem a 48% dos bancários, já os homens, 51%. “É preciso destacar que as mulheres são maioria nos bancos privados. No Itaú e no Santander, elas são 60%. Portanto, têm uma participação importante na categoria. É preciso que os sindicatos pensem em poítica pública para as mulheres. Quando isso é feito, a entidade está pensando em um grande número de trabalhadores de sua base”, diz Deise.

Outros dados apresentados dizem respeito à diferença salarial. O Censo de 2008 apontou que as bancárias ganham 24% menos que os bancários. O de 2014 mostrou que essa porcentagem reduziu muito pouco, caindo para 23%. De acordo com Deise, se essa discrepância continuar sendo reduzida nesse ritmo o nivelamento salarial demorará cerca de 88 anos para se concretizar. Ela afirma também que, quanto maior o grau de escolaridade, mais elevada é a desigualdade em termos de remuneração. Afinal, as mulheres que têm doutorado ganham cerca de 56% menos que os homens que possuem o mesmo título, ou seja, mesmo com o mesmo grau de instrução elas ocupam os cargos de menores salários.

“A luta pela implantação de um Plano de Cargos e Salários deve ser defendida pelas mulheres, pois o PCS ajuda a acabar com essa distorção por possibilitar uma forma transparente de ascensão profissional”, defende Deise. A sindicalista mostrou, ainda, dados que mostram que, entre as bancárias, as negras correspondem somente a 8%. Além disso, 65% dos casos de afastamento por doenças psíquicas são de mulheres. “Além da violência no ambiente de trabalho, elas somatizam outras formas de violência. Esse é um dos motivos desse grande índice”, explica Deise.

A programação do V Congresso Estadual dos Bancários e das Bancárias tem prosseguimento na tarde deste sábado, com os congressos específicos dos bancários de bancos privados, da Caixa, do Banco do Brasil, do Banestes e do Bandes. 

Confira o debate completo. 

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