Bancários retardam abertura de prédio do BB na Pio XII, em protesto contra assédio moral

Unidade ficou fechada até as 11 horas. Protesto denunciou que avaliação (GDP) que deveria servir para aprimoramento profissional se transformou em instrumento punitivo contra empregados que não atingem metas

Fotos Sérgio Cardoso

Na manhã desta quinta-feira, 14, bancários e bancárias paralisam até as 11h as atividades do prédio do Banco do Brasil na Pio XII, no centro de Vitória, onde funciona a sede administrativa do banco e agências. O protesto é contra o assédio moral.

Denúncias de funcionários dão conta de que o banco tem rebaixado deliberadamente as notas dos empregados no programa de avaliação interna (GDP) para justificar descomissionamentos. A paralisação aconteceu em todo o país e fez parte de um dia nacional de luta dos empregados do BB.

“Essa onda de descomissionamentos não começou agora, todos nós conhecemos o terror que é chegar no banco e poder encontrar a qualquer momento uma carta de rebaixamento. A pressão para cumprir metas é enorme e o banco se utiliza do descomisisonamento como ameaça. Hoje estamos aqui para questionar: até quando vamos trabalhar assim?”, disse o diretor do Sindicato Dérik Bezerra, empregado do BB.

O GDP é um programa com ciclos semestrais de avaliação que são usados como critério para o corte de funções, que só pode acontecer caso o empregado tenha três avaliações negativas consecutivas – regra que está prevista no Acordo Coletivo dos funcionários.

A avaliação, no entanto, deveria ser coletiva e voltada para o aprimoramento profissional, de maneira que os pontos fortes dos empregados fossem destacados e os problemas ou deficiências de trabalho fossem identificados, para daí propor soluções, como cursos de qualificação, reorientação profissional etc.

Na prática, segundo relatos dos funcionários, gestores e empregados estão sendo orientados pelas superintendências a avaliarem negativamente os colegas de trabalho, para que as notas negativas possam servir de justificativa para descomissionar quem o banco quiser, sem critérios claros para isso. E se antes era necessária uma avaliação em 360°, ou seja, envolvendo os gestores e demais funcionários, agora basta uma nota baixa do superior para que o banco possa efetuar o descomissionamento.

Denúncia

O Sindicato já recebeu denúncias até de anotações falsas na avaliação dos empregados, só para rebaixar a avaliação deles. A entidade anunciou que criará um canal de comunicação específico para acolher novas denúncias, que possam subsidiar ações políticas e jurídicas contra o assédio moral no BB.

O diretor Thiago Duda destacou a importância de compartilhar o máximo de provas e de não se calar. “O Sindicato precisa de informações e relatos que documentem a prática de assédio no banco, que sabemos, é institucional. Muitos bancários têm medo de se expor ao denunciar, mas se ficarmos em silêncio, essa realidade permanecerá a mesma” disse. Thiago lembra ainda que o Sindicato garantirá o sigilo de identidade dos bancários que utilizarem o canal de denúncias, que será divulgado em breve.

Adoecimento

O clima de pressão para o cumprimento das metas e o medo de receber uma avaliação negativa é generalizado nas unidades do banco e tem elevado o estresse dos funcionários. Não à toa os índices de adoecimento na categoria estão subindo. O número de bancários afastados por doença cresceu 30% entre 2009 e 2017, chegando a 17.310 no País. E mais de 50% dos afastamentos são em função de adoecimento mental.

Lucro

Não é só o adoecimento da categoria que está alto. O BB divulgou hoje os resultados de 2018.  O lucro ajustado foi de R$ 13,513 bilhões, alta de 22,2%, enquanto o lucro contábil foi de R$ 12,862 bi – alta de 16,8%. Só no quarto trimestre de 2018 o lucro líquido do banco chegou a R$ 3,845 bilhões, uma alta de 20,6% em relação ao mesmo período do ano anterior. É o banco lucrando em cima da exploração do trabalho e do adoecimento dos seus empregados.

 

 

Imprima
Imprimir