Banqueiros dizem “não” ao fim das terceirizações

Em mais uma rodada de negociação, os bancos se negam a atender as reivindicações da categoria e não apresentam propostas para garantir melhores condições de trabalho. Nesta quinta-feira, 04, terminou a terceira rodada de negociação entre o Comando Nacional dos Bancários e a Federação Nacional dos Bancos (Fenaban), em São Paulo. Mantendo uma postura intransigente […]

Em mais uma rodada de negociação, os bancos se negam a atender as reivindicações da categoria e não apresentam propostas para garantir melhores condições de trabalho. Nesta quinta-feira, 04, terminou a terceira rodada de negociação entre o Comando Nacional dos Bancários e a Federação Nacional dos Bancos (Fenaban), em São Paulo. Mantendo uma postura intransigente e desrespeitosa com os trabalhadores, a Fenaban não aceitou as reivindicações da categoria sobre emprego e remuneração e, ainda, defendeu a ampliação das terceirizações nos bancos.

Assim como nas duas primeiras rodadas, que discutiram saúde, condições de trabalho, segurança bancária e igualdade de oportunidades, os banqueiros demonstraram não ter interesse em adotar medidas de valorização da categoria. As negociações prosseguem nas próximas quarta, 10, e quinta-feira, 11, com foco nas cláusulas econômicas, que inclui índice de reajuste e PLR.

“Infelizmente, os banqueiros continuam desrespeitando os trabalhadores. Para a Fenaban, as agências são o lugar ideal para se trabalhar e alegam que todos os bancos, inclusive os privados, têm plano de carreira. Mas isso é uma grande farsa. A realidade das agências bancárias é de opressão ao trabalhador, que sofre com as desigualdades de gênero, de raça e com a precarização do trabalho. Os banqueiros são sócios da inflação e da miséria no Brasil. Somente com a mobilização dos bancários vamos reverter essa realidade. Estamos nos preparando, talvez, para uma das maiores greves da categoria”, destaca o coordenador geral do Sindibancários/ES, Carlos Pereira de Araújo.

Garantia de emprego

Estudo do Dieese com base no Caged do Ministério do Trabalho e Emprego mostra que os bancos múltiplos fecharam mais de 5 mil postos de trabalho entre janeiro e julho de 2014, além de 23 mil desligamentos, dos quais 63% foram demissões sem justa causa.

O Comando defendeu a pauta de reivindicações dos bancários, aprovada na 16ª Conferência Nacional, destacando sobre esse tema a garantia de emprego e o fim das demissões imotivadas, de acordo com os termos da Convenção 158 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

Os bancos alegaram que a Convenção Coletiva não é o instrumento adequado para impor tais restrições aos bancos, uma vez que se trata de políticas de cada instituição. Segundo eles, as demissões na categoria são “irrisórias e ajustes pontuais”, realizadas “com muita responsabilidade”.

Fim da terceirização e dos correspondentes bancários

O Comando também apresentou dados comparativos da Pesquisa Nacional de Amostragem Domiciliar (Pnad/IBGE) de 2011, que revelam ter 1,004 milhão de trabalhadores no ramo financeiro. A análise das principais Cnaes (Classificação Nacional das Atividades Econômicas do Setor Financeiro) de 2012, também deixa evidente que 839 mil trabalhadores são contratados por empresas financeiras. Desse total, 512 mil eram bancários. Somente nesta classificação, estão identificados 165 mil trabalhadores do sistema financeiro não enquadrados na categoria e, portanto, sem a proteção da Convenção Coletiva de Trabalho (CCT).

Mas o número real de bancários informais é infinitamente maior, uma vez que soma-se a isso os aproximadamente 400 mil estabelecimentos de correspondentes bancários e o fato de os bancos terceirizarem atividades em que Cnaes não pertencentes ao sistema financeiro. Ou seja, enquanto o nível de emprego na categoria vem caindo, inversamente aumenta o processo de terceirização das atividades bancárias.

Por isso, os bancários reivindicaram o fim das terceirizações e da utilização dos correspondentes bancários em substituição às agências bancárias. Contudo, os negociadores da Fenaban argumentaram que a terceirização é parte estratégica da organização do negócio e defenderam a sua regulamentação de forma ampla e irrestrita.

“Os banqueiros deixaram claro que não têm interesse em acabar com a precarização do trabalho. Pelo contrário, querem regulamentar as terceirizações que são a engrenagem desse sistema que penaliza trabalhadores e clientes. Os bancários sofrem com baixos salários, alta rotatividade, adoecimento da categoria e com a pressão por metas. E a população amarga longas filas e é usurpada com as altas taxas de serviços e de juros”, enfatiza Carlão.

Encarecimento das demissões

O Comando também apresentou à Fenaban a reivindicação de aumentar o valor da indenização adicional, já prevista na Convenção Coletiva nos casos de dispensas sem justa causa, como um mecanismo inibidor das demissões. Os bancos alegaram que esse tema é de natureza econômica e darão retorno somente ao longo do processo de negociação.

Jornada de trabalho

Além de cobrar o respeito à jornada de trabalho de seis horas, o Comando apresentou uma antiga reivindicação da categoria: redução da jornada para cinco horas, de segunda a sexta-feira, para todos os bancários. A medida é plenamente possível de ser adotada, tendo em vista o alto nível de produtividade da categoria. Além disso, novas vagas seriam abertas, proporcionando melhores condições de trabalho e de saúde para os trabalhadores bancários.

PCS

Após o debate de emprego, o Comando iniciou a discussão das reivindicações sobre remuneração. O primeiro tema foi a demanda histórica de implementação de Planos de Cargos e Salários (PCS) em todos os bancos, que já existem nas instituições públicas. O PCS é um importante instrumento para que não haja desigualdades, inclusive de gênero, raça e orientação sexual. Além disso, a diferença entre a remuneração dos altos executivos e dos funcionários chega a 318 vezes, uma das maiores do mundo.

Mas os bancos não admitiram em hipótese alguma incluir a obrigatoriedade de um PCS na Convenção Coletiva e ainda descartaram qualquer possibilidade de incorporar ganhos automáticos em decorrência de tempo de serviço.

Piso salarial

O Comando reivindicou o salário de ingresso de R$ 2.979,29 para escriturário, que corresponde ao salário mínimo calculado pelo Dieese. Para caixas e empregados de tesouraria, o piso seria de R$ 4.021,99; para primeiros comissionados, de R$ 5.064,73; e para primeiro gerente, R$ 6.703.31. Os negociadores da Fenaban se comprometeram a apresentar uma proposta de piso durante o processo de negociação.

Reivindicações

Ainda sobre emprego, outras reivindicações foram discutidas, como as condições para funcionamento das agências, o controle do tempo de permanência nas filas, a criação de uma comissão sobre mudanças tecnológicas, a instalação de comitê de relações trabalhistas, o abono-assiduidade de cinco dias por ano e investimentos dos bancos para a qualificação e requalificação profissional.

Os bancos recusaram as reivindicações apresentadas, e vão responder apenas sobre a possibilidade de realizar um seminário para aprofundar conhecimentos acerca das mudanças tecnológicas.

Calendário de negociações

8 – Terceira rodada de negociação específica com a Caixa
8 – Entrega da pauta específica de reivindicações ao BNDES
10 e 11 – Quarta rodada de negociação com a Fenaban
12 – Terceira rodada de negociação específica com o BB

Com informações da Contraf.

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