Caixa: 10 dias de tormento para atendimento a saques do FGTS em Viana

Calor, superlotação, mobiliário improvisado e falta de iluminação foram problemas enfrentados por bancários durante atendimento aos moradores de Viana, que recorreram ao banco para fazer o saque do FGTS após chuvas e alagamentos no final de 2018. Estrutura para receber população foi improvisada no Teatro da Prefeitura de Viana

Fotos: Sérgio Cardoso

Terminou nesta terça-feira, 19, o atendimento da Caixa para agendamento do saque do FGTS aos trabalhadores de Viana que foram vítimas das chuvas de novembro de 2018. O atendimento presencial começou no dia 06, quarta-feira de cinzas, no Teatro Municipal, espaço cedido pela Prefeitura de Viana para receber um número maior de pessoas.

Ao todo, foram 10 dias de agonia, tanto para a população acolhida quanto para os bancários. É que o Teatro não oferecia estrutura adequada, nem houve planejamento da Caixa para garantir boas condições de trabalho e de atendimento. Calor, mobiliário improvisado, falta de iluminação e número de assentos insuficiente foram problemas enfrentados.

O Sindicato dos Bancários/ES visitou o local três vezes. O ar condicionado do Teatro, apesar de funcionar, não era suficiente para climatizar o auditório superlotado e com alta rotatividade. Por dia, eram realizados cerca de 800 atendimentos, mas o número de pessoas que circulava pelo espaço era ainda maior.

“As pessoas pingavam suor, literalmente”, conta Renata Garcia, dirigente sindical que foi ao local. Só nesta terça-feira, último dia previsto para o agendamento dos saques, foram providenciados ventiladores, que ficavam direcionados para as mesas de atendimento, aliviando um pouco a sensação de calor.

ventiladores foram improvisados no chão, no último dia de atendimento, para amenizar o calor

“É uma situação de desrespeito por parte da Caixa e da Prefeitura de Viana. Nem empregados e nem a população podem ser expostos à condição tão precária”, critica Giovanni Riccio, dirigente do Sindicato.

Situação do banheiro no andar térreo, que era divido entre bancários e clientes

Bancários relatam que, no início, não havia sequer água gelada para beber, o que só foi providenciado no decorrer dos dias. As bancadas de atendimento também foram improvisadas, com cadeiras e mesas de plástico, um mobiliário desconfortável e inadequado para quem trabalha horas sentado. Além disso, o único banheiro do andar térreo, onde ficava o auditório, era de uso comum, sendo compartilhado por bancários e clientes. Era praticamente impossível manter as condições de higiene para um público tão grande.

 

Providências

Após tomar conhecimento dos fatos, o Sindibancários/ES contatou vários setores da Caixa e cobrou melhorias, mas muitos problemas ainda permaneciam neste último dia. A entidade acionou a REPES (Representação de Gestão de Pessoas) para relatar os fatos e cobrar a visita de um profissional de saúde para conferir as condições de trabalho. A RELOG, setor responsável pela manutenção nas agências da Caixa, também foi mobilizada, mas o representante do setor disse que não estavam envolvidos na ação e que não podiam tomar providências porque o prédio do Teatro não era de responsabilidade da Caixa.  Também foram acionados a gerente geral da agência Viana, o responsável pela Gestão de Pessoas da Caixa e a Superintendência. Nenhuma resposta ou medida da Caixa conseguiu atenuar a gravidade da situação.

“Estava tão insalubre que os empregados saíam com enxaqueca, dor nas costas e só aguentavam a rotina com medicação. Funcionários tiveram que ser afastados por licença-médica. Ainda assim, a Caixa não tomou as providências necessárias”, critica a diretora Renata Garcia.

População

A situação dos bancários estava ruim, mas o mesmo vale para os clientes, cuja espera para atendimento demorava horas.

Ainda era madrugada quando dona Maria Aparecida, 56, entrou na fila para pegar uma senha. “Chegamos por volta das quatro e pouco da manhã”, conta. Ela estava acompanhada do Marido, Cletinho Sarmento, de 75 anos. Antes deles, 131 pessoas já se acumulavam em busca de senha. Às 11 horas, quando conversou com nossa equipe, ela tinha acabado de passar pela triagem da Defesa Civil, que fazia o primeiro atendimento, e aguardava ser chamada pelos empregados da Caixa. Até aí foram quase sete horas de espera. Ontem ela já estivera no auditório. Chegou às 5h30, esperrou até as 14h, mas teve que ir embora sem ser atendida para não perder uma consulta médica. Hoje decidiu ir mais cedo.  Apesar do transtorno, ela e o marido aguardavam pacientes. Reclamaram apenas do espaço. “Muito pequeno né, pra muita gente”, disse Maria.

Dona Maria Aparecida e o marido, Cletinho Sarmento

Dona Maria perdeu boa parte dos móveis com o alagamento das últimas chuvas, que, segunda ela, eram comuns no bairro onde morava, o Universal. Cansada de ter que lidar com as enchentes, se mudou para um bairro da Serra. “Esse dinheiro do FGTS vai me ajudar a comprar alguma coisa do que perdi”, diz.

Tragédia semelhante atingiu senhor José Ronaldo Nepomuceno Moraes, vendedor de 43 anos e morador de Vila Bethânia. Ronaldo chegou por volta das 7h. Sua senha era a 438. Ele fala com esperança sobre a possibilidade de receber o dinheiro para melhorar o imóvel de dois pavimentos que divide com a família da irmã.  “Quero tentar pelo menos melhorar um pouco né. Não quero que as pessoas cheguem na minha rua e vejam a minha casa feia”.

Ele relata que a chuva destruiu o telhado da casa, de amianto. Ele perdeu guarda-roupa, cama e outros móveis. “Hoje ainda durmo no chão, porque não tenho condições de comprar tudo de vez. A casa precisa de melhorias, de pintura, porque teve infiltração, a casa está descascada, feia. Vim tentar conseguir para melhorar a minha casa”.

José Ronaldo, com a senha, aguardando atendimento. Apesar da longa espera que tinha pela frente, aguardava ansioso pelo recurso para fazer melhorias na casa, prejudicada pela chuva

A diretora Renata Garcia fala sobre a importância das políticas gerenciadas pela Caixa e como a falta de estrutura impacta esse trabalho, que é essencial à população. “São nesses momentos que a Caixa mostra seu papel social, sua função primeira. Mas para cumprir esse papel e garantir que esse direito chegue nas mãos dos trabalhadores, é preciso condições adequadas. É o mínimo para que os empregados realizem sua função e a função pública da Caixa Econômica Federal”, diz Renata Garcia.

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