Caixa envia questionário para bancários sobre implantação de agências digitais

Por meio do questionário o banco busca saber, por exemplo, a familiaridade dos trabalhadores com as plataformas digitais

A Caixa divulgou que dará início ao programa Transformação Digital com o lançamento de uma pesquisa que, de acordo com a instituição financeira, pretende mapear, entre os empregados, conhecimentos, habilidades e experiências ligadas ao universo digital, além de identificar o quanto a empresa está pronta, comprometida e capacitada, dentro do contexto digital. A pesquisa foi enviada por e-mail aos bancários e bancárias.

“As perguntas do questionário não deixam margem para a contestação, para que o trabalhador se manifeste contrariamente. Elas induzem as respostas àquilo que a Caixa quer, que é a implantação das agências digitais, não dando aos bancários e bancárias a possibilidade de dizer, por exemplo, o quanto isso pode ser prejudicial para bancários e clientes”, diz o diretor do Sindicato dos Bancários/ES, Igor Bongiovani.

Por meio do questionário a Caixa afirma que a transformação digital vai exigir mudanças no modelo de trabalho, adaptação dos processos organizacionais e criação de uma cultura digital que permeie todos os bancários e bancárias. A instituição financeira pergunta, por exemplo, qual a familiaridade dos trabalhadores e trabalhadoras com plataformas digitais. “Nada mais é do que uma forma de intimidar as pessoas, de mandar o recado dizendo que elas têm que se adaptar de qualquer jeito a esse novo processo”, diz a diretora do Sindibancários, Lizandre Borges.

Digitalização do Sistema Financeiro

Não é somente a Caixa que tem ampliado o serviço digital. Com o desenvolvimento das tecnologias da informação e da comunicação está acontecendo o processo de digitalização do sistema financeiro. Apresentados como uma grande inovação tecnológica e garantia de comodidade aos clientes, os bancos digitais, na verdade, fazem parte de um processo de aumento da exploração do trabalho para aumentar ainda mais o lucro dos banqueiros. A professora do Departamento de Serviço Social da UFES Maria Helena Eupídio afirma que a digitalização do sistema financeiro tem como uma de suas consequências a redução de postos de trabalho.

“A ampliação e aprofundamento tecnológico substitui o trabalho humano por máquinas. Porém, não anula o trabalho humano, apenas diminui as vagas de emprego, além do fato de que os serviços prestados pelo banco por meio dos trabalhadores são transferidos para os clientes”, destaca.

De acordo com a professora o cliente se torna um trabalhador indireto, executando, por meio eletrônico, serviços que antes era feitos pelos bancários e bancárias. Para Maria Helena Eupídio, isso caracteriza uma dupla exploração: a do trabalhador e do cliente.

“No caso dos trabalhadores, além da redução dos postos de trabalho, a digitalização faz com que eles tenham que controlar mais processos, o que exige mais especialização em virtude do constante avanço tecnológico. Entretanto, o salário não acompanha o aumento dessa exigência”, explica.

Maria Helena destaca também que, por terem que controlar mais processos, os bancários e bancárias correm o risco de ter sua carga horária estendida, já que a demanda de serviço irá aumentar. Ela salienta, ainda, que se cria um ambiente de competitividade, já que num sistema digitalizado a cobrança de metas é mais rigorosa, podendo aumentar o número de adoecimentos. A fala da professora não é somente como estudiosa do assunto, mas também como cliente.

“Tenho acesso a uma conta do BB numa agência digital, pois a física foi extinta. A gerente tem mais de 600 contas de pequenas empresas para gerenciar. Quando o cliente tem alguma demanda, ela tem que programar o retorno. Inclusive, é estipulado para ela, pelo banco, um prazo para que ela dê a resposta às demandas de centenas de clientes. Caso não consiga fazer isso dentro da meta imposta, a posição dela no ranking dos funcionários cai”, afirma Maria Helena Eupídio.

Reduz número de agências físicas no Brasil

Mais de 100 municípios brasileiros deixaram de ter agência bancária em dois anos. É o que revela os dados do Banco Central, divulgados no dia 06 de março. Os dados revelam que em 2014 a quantidade de municípios que não possuíam agência era de 241. Esse número subiu para 352 em 2016. A principal justificativa das instituições financeiras para o fechamento de agências é a ampliação do atendimento por meio de canais digitais. A diretora do Sindicato dos Bancários/ES, Lizandre Borges, destaca que os bancos digitais podem promover a exclusão de boa parte da população em relação aos serviços bancários.

“O acesso às plataformas digitais não é uma realidade para todos brasileiros, pois é preciso ter acesso a equipamentos que nem todos podem comprar, como tablets e smartphone”, diz.

Com reestruturações, fechamentos de agências podem aumentar

Um fator que pode contribuir para o aumento do fechamento de agências bancárias é a reestruturação dos bancos públicos. No Espírito Santo, por exemplo, em virtude do processo de desmonte imposto pelo governo ilegítimo de Temer (PMDB), as agências do Banco do Brasil na Vila Rubim e na Praia do Canto foram fechadas.

“Com o fechamento da agência Moscoso muitos clientes migraram para a agência Pio XII. O resultado disso foi a sobrecarga de trabalho, pois houve aumento do número de clientes e ocorreu também a redução de funcionários. Alguns clientes da agência Moscoso se sentiram desrespeitados, pois moravam ou trabalhavam ali na região, estavam acostumados a ser atendidos na agência que existia ali. Por isso, acabaram mudando de banco”, afirma a diretora do Sindicato dos Bancários/ES, Evellyn Flores.

Evellyn destaca que o BB quer passar a imagem, por meio de campanhas publicitárias, de um banco que preza pelo bom atendimento.

“Uma das coisas incoerentes é que este ano o Banco do Brasil lançou a campanha Ano do Atendimento, por meio da qual afirma que os funcionários devem valorizar o atendimento ao cliente. Como o BB pode falar em valorização do cliente colocando em prática uma política de fechamento de agências e sobrecarga de trabalho para os bancários?”, questiona.

Outro banco que está passando por um processo de reestruturação é o Banco do Nordeste do Brasil (BNB). Por causa disso, em 2017 já foram fechadas 12 agências e há previsão de fechamento de mais nove. Entretanto, antes mesmo de anunciar a reestruturação o BNB já vinha fechando agências, como a de Vitória, que deixou de funcionar em 2016.

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