Caixa nomeia vice-presidentes, com indicação de dois nomes do mercado

A ocupação dos cargos seguiram seleção pública que admite a contratação de quadros externos ao banco, já sob as regras no novo estatuto da Caixa, cujas alterações foram comandas pela presidente do Conselho de Administração Ana Paula Vescovi

Foram nomeados no dia 07 de novembro os quatro novos vice-presidentes da Caixa, responsáveis pelas pastas de Governo, Fundos de Governo e Loterias, Habitação e Corporativo.

A ocupação dos cargos, todos da alta administração da Caixa, seguiram seleção pública que admite a contratação de quadros externos ao banco, já sob as regras no novo estatuto da Caixa, cujas alterações foram comandas pela presidente do Conselho de Administração Ana Paula Vescovi.

Dois dos quatro nomeados não são empregados do banco e têm histórico de atuação no sistema financeiro privado, o que reforça uma política de alinhamento da Caixa aos interesses de mercado e uma possível privatização.

O novo responsável pela vice-presidência Corporativo é o economista João Eduardo de Assis Pacheco que, entre outras instituições, atuou no Santander, Safra e Mercantil de Investimentos. Na vice-presidência de Governo quem assume é o economista João Carlos Gonçalves da Silva, que trabalhou na SPDA (Companhia São Paulo de Desenvolvimento e Mobilização de Ativos), da Prefeitura de SP, banco ABC Brasil e banco Fator. Ele também foi assessor técnico em processos de privatizações como o da Cedae, Agência Reguladora de Energia e Saneamento Básico do Estado do Rio de Janeiro.

As vice-presidências de Habitação e Fundo de Governo e Loterias serão ocupadas pelos empregados de carreira Jair Luis Mahl e Roberto Barros Barreto, respectivamente. Ambos ocupavam cargos de diretor executivo da CEF.

Papel social da Caixa em risco

Para o Sindicato, as nomeações ameaçam o papel social da Caixa e seu caráter público. “A Caixa é responsável pela execução das principais políticas de habitação, saneamento, infraestrutura, além de distribuição de crédito e combate às desigualdades. Como banco público, seus resultados vão muito além dos indicadores de lucro, por isso, a ocupação das vice-presidências por executivos externos é tão preocupante, porque amplia a influência do mercado na gestão da Caixa, com pautas que conflitam diretamente com o interesse público e o com o papel do banco”, critica Lizandre Borges, diretora do Sindicato.

As mudanças no estatuto da Caixa estão sendo questionadas juridicamente pelas entidades sindicais. A Contraf já entrou com uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (Adin), aceita pelo ministro Ricardo Lewandowisky do Supremo Tribunal Federal (STF), que pede a suspensão da vigência do atual estatuto. Segundo a ação, o novo estatuto, aprovado com base na Lei das Estatais, fere o decreto 759/69, de criação da Caixa, que foi abarcado pela Constituição Federal de 88, e que determina que qualquer mudança na estrutura do banco precisa ser submetida à aprovação do Congresso Nacional e da Presidência da República.

Nomeações são feitas no apagar das luzes do governo Temer

Vescovi, que foi a principal articuladora da revisão estatutária da Caixa, pressionou para que as nomeações, de responsabilidade do presidente da república, saíssem o mais rápido possível. O fato é que, em geral, nomeações desse porte ou mesmo concursos públicos não acontecem em períodos eleitorais ou de transição presidencial, o que torna as nomeações ainda mais questionáveis.

“A pressão para que as nomeações fossem feitas ainda esse ano, no apagar das luzes do governo Temer, podem ser indicativos de uma tática de fortalecimento da imagem de Vescovi como gestora linha dura e eficiente, a fim de se gabaritar no cenário político para galgar postos mais altos”, avalia a diretora do Sindicato Rita lima. No final desta quarta-feira, o nome de Vescovi já foi divulgado como opção para a assumir a presidência da Caixa na gestão de Jair Bolsonaro.

Na Caixa, a notícia já repercute e empregados relatam clima de terror. Vescovi é conhecida por ser altamente egocêntrica e atribuir a si todos os méritos da Caixa, ignorando a atuação do corpo funcional. Agindo de forma autoritária e sem qualquer trato com os empregados, Vescovi amplia a cada dia a resistência interna no banco.

“Os empregados anseiam por uma liderança ética, harmônica, que ouve, não atropela, que incentiva e que valoriza as conquistas da empresa e dos empregados. Ana Paula Vescovi vai no sentido oposto. O clima na Caixa atualmente é péssimo; e com essa gestão, arriscamos perder toda a função social que diferencia a Caixa no mercado”, diz Rita Lima.

Profissionais de carreira deveriam ser valorizados

O Sindicato sempre defendeu que os espaços de gestão fossem ocupados por empregados de carreira, capazes de conciliar as competências técnicas para o cargo e a experiência de trabalho no banco, mas a gestão de Vescovi vai justamente no sentido contrário, dando mais um passo na política de desmonte da Caixa. Até mesmo os cargos da diretoria executiva, que eram ocupados exclusivamente por empregados do banco, podem ser afetados, já que uma nova alteração estatutária foi aprovada permitindo que as áreas Jurídica, Auditoria e Corregedoria possam ser ocupadas por contratados externos.

A alteração contou com voto contrário da representante dos empregados no Conselho de Administração, Maria Rita Serrano. “Com isso, vai se descaracterizando a gestão pública e se implantando uma cultura de empresa privada no banco, atingindo pessoas e serviços”, alerta a representante do CA, em nota publicada após o anúncio das nomeações.

Nova seleção anunciada

A Caixa já iniciou o segundo ciclo do processo seletivo para preencher as vice-presidências de Administração e Gestão de Ativos de Terceiros, Logística e Operações, Produtos de Varejo, além da vice-presidência de Tecnologia da Informação.

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