Caixa quer colocar em prática implantação do Banco Digital

Iniciativa pode causar maior precarização das condições de trabalho, elitização do atendimento bancário e desmantelamento das políticas públicas.

O plano de implantação do Banco Digital da Caixa será apresentado em janeiro, segundo anúncio feito pela instituição financeira na quarta-feira, 21. A iniciativa, que tem sido apresentada pelo banco como uma prova de que ele está atento “às tendências de um novo mundo digital”, na verdade trará muitos prejuízos para os trabalhadores e trabalhadoras, como fechamento de postos de trabalho, desmantelamento de políticas públicas e elitização do atendimento bancário.

A diretora do Sindicato dos Bancários/ES, Lizandre Borges, destaca que a implantação do Banco Digital “empurrará” cada vez mais os clientes das camadas populares para os correspondentes bancários.

“A inclusão digital ainda não é uma realidade para todos os brasileiros. Além disso, para entrar em determinadas plataformas digitais é preciso ter acesso equipamentos como tablet e smartphone, que atualmente muitas pessoas não têm condições de comprar e terão menos ainda nesse cenário de crise, retirada de direitos trabalhistas e arrocho salarial. O que restará para esses clientes é o atendimento nos correspondentes bancários, como as casas lotéricas”, afirma Lizandre.

A realidade de exclusão digital apontada por Lizandre é comprovada por meio de um estudo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com base em dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), feita como o Ministério das Comunicações, referente a 2013. O estudo aponta que o total de domicílios com acesso à internet no Brasil é de 48%, um índice abaixo da média dos países da Europa (76,2%) e da América (54,6%). A pesquisa levou em consideração as conexões feitas com computador, smartphones, tablets, TVs conectadas e outros dispositivos.

Lizandre acredita que, com a implantação do Banco Digital e a migração cada vez maior das camadas populares para os correspondentes bancários, a tendência é as agências físicas, com o passar do tempo, ficarem focadas no atendimento a um público mais elitizado, como já acontece no Banco do Brasil por meio de agências como a Estilo e a Private.

“No BB o atendimento digital não é mostrado como uma alternativa para as camadas populares, e sim, uma obrigação. Já os clientes que fazem parte da elite podem optar pelo atendimento digital ou presencial em agências próprias para eles”, explica o diretor do Sindibancários, Thiago Duda.

Lizandre destaca que outra consequência dessa elitização é o desmantelamento das políticas públicas.

“Há mais de 150 anos a Caixa desenvolve diversas políticas públicas importantes para a inclusão social, como as de habitação e saneamento básico. Com o passar do tempo ela pode perder esse caráter, deixar de ser uma instituição financeira com foco num público mais popular e passar a ser um banco de mercado como outro qualquer, e quem será prejudicado com isso são os clientes de baixa renda. Além disso, vamos presenciar muitos transtornos para os trabalhadores, como maior sobrecarga de trabalho, entre outros problemas”, afirma a sindicalista.

Os bancários e bancárias do BB já estão vivendo essa experiência de precarização do trabalho com o fechamento de duas agências de Vitória (Vale e Praia do Suá) em maio deste ano em virtude da implantação do Banco Digital. Houve redirecionamento dos trabalhadores e trabalhadoras para as agências Fernando Ferrari e Leitão da Silva. A tendência, segundo Thiago Duda, é que os gestores que tiveram que operar o atendimento digital fiquem sobrecarregados com grandes carteiras e jornadas de trabalho extensas. Os que ficaram nas agências físicas já sentem dificuldade de readequar suas metas com um número menor de clientes.

Além disso, as agências físicas que receberam os bancários e carteiras transferidas tiveram grande sobrecarga de atendimento.

“A digitalização do atendimento deixa lastro para a terceirização e para a criação de subcategorias de atendentes, não necessariamente reconhecidas como bancárias. As medidas vão reduzir o nível de emprego e intensificar as atividades dos trabalhadores que permanecerem nas agências”, avalia Duda.

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