Calendário 2016 já está sendo distribuído pelas agências e esse ano traz o tema “Dias de luta e de arte”

“Meu povo é grande No litoral e sertão É um povo ah! Meu povo É povo revolução” – trecho da poesia 1922, Glauber Rocha –   Como diz o poeta paranaense Paulo Leminski, na luta de classes todas as armas são “buenas”, desde pedras a poemas. E é com esse mesmo sentimento de luta que […]

“Meu povo é grande

No litoral e sertão

É um povo ah! Meu povo

É povo revolução”

– trecho da poesia 1922, Glauber Rocha –

 

Como diz o poeta paranaense Paulo Leminski, na luta de classes todas as armas são “buenas”, desde pedras a poemas. E é com esse mesmo sentimento de luta que o Sindicato dos Bancários do Espírito Santo lança o Calendário 2016 com o tema “Dias de luta e de arte”.

O tema lembra que a poesia e a arte também são instrumentos de resistência para os trabalhadores e trabalhadoras. Em cada mês, há um trecho de algum poeta ou poetisa que por meio das letras grita por um mundo mais justo e igualitário. O calendário já está sendo distribuído pelas agências bancárias.

Veja abaixo a íntegra dos poemas do Calendário 2016.

GLAUBER

1922

De Glauber Rocha

 

meu povo é triste

de pau perado

é um povo mole

de zés perado

meu povo é doce

malandro sensual

é um povo gostoso

dançarino musical

meu povo é mestiço

linguarudo fofoqueiro

é um povo inteligente,

ignorante e condoreiro

meu povo é grande

no litoral e sertão

é um povo ah! meu povo

é povo revolução

 DRUMOND

 

 “Lira Itabirana”

De Carlos Drummond de Andrade

 

I

O Rio? É doce.

A Vale? Amarga.

Ai, antes fosse

Mais leve a carga.

II

Entre estatais

E multinacionais,

Quantos ais!

III

A dívida interna.

A dívida externa

A dívida eterna.

IV

Quantas toneladas exportamos

De ferro?

Quantas lágrimas disfarçamos

Sem berro?

 

JORGE AMADO

Cantiga de ninar Malvina

De Jorge Amado

 

Dorme, menina dormida
Teu lindo sonho a sonhar.
No teu leito adormecida
Partirás a navegar.

Estou presa em meu jardim
Com flores acorrentadas.
Acudam! Vão me afogar.
Acudam! Vão me matar.
Acudam! Vão me casar.
Numa casa me enterrar
Na cozinha a cozinhar
Na arrumação a arrumar
No piano a dedilhar
Na missa a me confessar.
Acudam! Vão me casar
Na cama me engravidar.

No teu leito adormecida
Partirás a navegar.

Meu marido, meu senhor
Na minha vida a mandar.
A mandar na minha roupa
No meu perfume a mandar.
A mandar no meu desejo
No meu dormir a mandar.
A mandar nesse meu corpo
Nessa minh’alma a mandar.
Direito meu a chorar.
Direito dele a matar.

No teu leito adormecida
Partirás a navegar,

Acudam! Me levem embora
Quero marido pra amar
Não quero pra respeitar
Quem seja ele – que importa?
Moço pobre ou moço rico
Bonito, feio, mulato
Me leva embora daqui,
Escrava não quero ser.
Acudam! Me levem embora.

No teu leito adormecida
Partirás a navegar.

A navegar partirei
Acompanhada ou sozinha
Abençoada ou maldita
A navegar partirei.
Partirei pra me entregar
A navegar partirei.
Partirei pra trabalhar
A navegar partirei.
Partirei pra me encontrar
Para jamais partirei.

Dorme menina dormida
Teu lindo sonho a sonhar.

 

ANAYDE

De Anayde Beiriz

 “Nasci

Nasceu

Cresceu

Namorou

Noivou

Casou

Noite nupcial

As telhas viram tudo

Se as moças fossem telhas não se casariam…”

 

NSIA

Fragmentos do poema “A lágrima de um Caeté”

De Nísia Floresta

 

…Era um Caeté, que vagava

Na terra que Deus lhe deu,

Onde Pátria, esposa e filhos

Ele embale defendeu!…

Aqui, mais tarde trazendo

Na alma triste, acerba dor,

Vim chorar as praias minhas

Na posse de usurpador!

Que de invadi-las

Não satisfeito,

Vinha nas matas

Ferir-me o peito!

Ferros nos trouxe,

Fogo, trovões,

E de cristãos

Os corações

E sobre nos

Tudo lançou!

De nossa terra

Nos despojou!

Tudo roubou-nos,

Esse tirano,

Que povo diz-se

Livre e humano!

MRIO LAGO 

 

Eu quero duas rimas

De Mário Lago

 

Eu quero duas rimas para liberdade.

Nem cidade nem saudade,

nem faculdade nem eternidade.

Eu quero duas rimas para liberdade

para escrever um poema

que fale da fome de um operário,

que fale da angústia de um camponês.

Achei as duas rimas para liberdade!

Luta e União.

Amigos!

Sejamos todos poetas!

Utilizemos as rimas!

E escrevamos todos juntos.

de uma vez,

o poema da liberdade

que acabe com a fome de um operário,

que acabe com a angústia de um camponês.

 

AUGUSTO

De Augusto Boal

 

“…Paixão não é sofrimento, não é doença: é vida!

A Paixão de Cristo não foram doze quedas, percalços no caminho do Calvário:

Paixão era a sua determinação em realizar o desejo do Pai e salvar o ser humano.

Não é a paixão de Romeu e Julieta que os faz sofrer e lhes traz a morte:

é o ódio voraz entre Montequios e Capuletos, suas famílias latifundiárias, seus sequazes e capangas, que lutam por mais terra e mais poder.

O obstáculo faz sofrer: a paixão vivifica!

Foi a paixão de Che Guevara que o levou à felicidade cubana;

foram os obstáculos imperialistas que o levaram à morte boliviana.

Foi a paixão do Tiradentes que o levou à Inconfidência Mineira;

foi D. Maria, a Louca, que o levou à forca!

A paixão faz sofrer, é certo; não, porém, porque seja paixão, mas por ser libertária!

O artista, quando o é de verdade, é um apaixonado

Sou um homem apaixonado pelas paixões…”

 

HENFIL

 

 

JOO CABRAL

Morte e Vida Severina

De João Cabral de Melo Neto

 

O meu nome é Severino,

como não tenho outro da pia.

Como há muitos Severinos,

que é santo de romaria,

deram então de me chamar

Severino de Maria.

Como há muitos Severinos

com mães chamadas Maria,

fiquei sendo o da Maria

do finado Zacarias.

Mas isso ainda diz pouco:

há muitos na freguesia,

por causa de um coronel

que se chamou Zacarias

e que foi o mais antigo

senhor desta sesmaria.

Como então dizer quem falo

ora a Vossas Senhorias?

Vejamos:é o Severino

da Maria do Zacarias,

lá da Serra da Costela,

limites da Paraíba.

Mas isso ainda diz pouco:

se ao menos mais cinco havia

com nome de Severino

filhos de tantas Marias

mulheres de outros tantos

já finados,Zacarias,

vivendo na mesma serra

magra e ossuda em que eu vivia.

Somos muitos Severinos

iguais em tudo na vida,

morremos de morte igual,

mesma morte severina:

que é a morte de que se morre

de velhice antes dos trinta,

de emboscada antes dos vinte,

de fome um pouco por dia

(de fraqueza e de doença

é que a morte severina

ataca em qualquer idade,

e até gente não nascida).

 

CORA

O cântico da terra

De Cora Coralina

 

Eu sou a terra, eu sou a vida.

Do meu barro primeiro veio o homem.

De mim veio a mulher e veio o amor.

Veio a árvore, veio a fonte.

Vem o fruto e vem a flor.

Eu sou a fonte original de toda vida.

Sou o chão que se prende à tua casa.

Sou a telha da coberta de teu lar.

A mina constante de teu poço.

Sou a espiga generosa de teu gado

e certeza tranqüila ao teu esforço.

Sou a razão de tua vida.

De mim vieste pela mão do Criador,

e a mim tu voltarás no fim da lida.

Só em mim acharás descanso e Paz.

Eu sou a grande Mãe Universal.

Tua filha, tua noiva e desposada.

A mulher e o ventre que fecundas.

Sou a gleba, a gestação, eu sou o amor.

A ti, ó lavrador, tudo quanto é meu.

Teu arado, tua foice, teu machado.

O berço pequenino de teu filho.

O algodão de tua veste

e o pão de tua casa.

E um dia bem distante

a mim tu voltarás.

E no canteiro materno de meu seio

tranqüilo dormirás.

Plantemos a roça.

Lavremos a gleba.

Cuidemos do ninho,

do gado e da tulha.

Fartura teremos

e donos de sítio

felizes seremos.

 

JOEL

De Joel Nobre Jr.

 

Ao ouvir o barulho de sirene na rua
O coraçao da mãe acelera no quarto.
Seu filho é o alvo…
Também das orações
E fervorosas
Agressões
Com o berro nas costas
Sem dar um pio.
Viu
Mas fingiu que não
A cara do cara
Que lhe bateu na cara
Sem nem saber o porquê
Perto do portão de casa.
Sua pele preta
Feito Kunta Kinte e kiriku
Perdeu a conta
De quantas pancadas.
Só mancada
De quem não te quer caminhando ereto.
Fanon já falou da cor da máscara
Dos cidadãos de bem,
Da dor no andar de quem
Luta pra não se sentir por baixo
Mesmo depois de tanto luto.
Mas,ainda há muitos filhos da..
Ideia de Gobineau.Puto.

Agora
Com a cabeça colada no colo materno,
Chora.
Foi pego pelo capitão do mato.
Entre soluços
Não encontra solução.
Apesar do alto preço pago,
Há tanta violência
Gratuita,
Fruto da falsa abolição.
Aberracão.
Distorção.
Educação
Originária do pensamento da colonização.
Discriminação.

To ligado
Que
Quebrar grilhões
incomoda
Assim como um preto com o bolso cheio de nota.
Mas,Mandela mandou avisar:
Os 27 anos no xadrez
não passarão em branco.
É pra chegar de sola mesmo,
Tipo Solano Trindade,
Driblando as dificuldades
Desse jogo injusto.
Porra!
Jugo pesado que Maria Carolina de Jesus carregou
E não arregou naquele quarto de despejo
Com o mesmo desejo que Jovelina Pérola Negra teve em mostrar o seu valor quando cantou nas rodas de bamba e encantou.

Ficar de canto na própria história
É foda.
Livremo-nos dos livros escritos por mãos brancas.
Dandara foi quem sangrou
E Isabel,consagrada.
Essa conversa fiada contata nas escolas faz parte da segregação,fi.
E na moral,
Há anos que o negro drama denunciou:
“Nos ver pobre,preso ou morto já é cultural.”
Nós somos a cura para essa trama.
Somente juntos
Com conhecimento
E coragem
Sairemos da lama.
Por hoje,irmão
Enxugue às lágrimas
Vire a página
E prepare a reação
Rumo a revolução.

 SOLANO

Nem tudo está perdido

De Solano Trindade

 

Nem tudo está perdido irmãos
Nem tudo está perdido amadas
O Sol voltará a nos trazer calor

Esta é a mensagem nova
que o poeta nos traz
para que desperteis para a luta
na hora de vossa angústia
irmãos e amadas do meu século!

Se os poderosos
cada vez mais escravizam,
os oprimidos
lutam por liberdade
É maior a esperança
de libertação…

Nem tudo está perdido amigos
nem tudo está perdido camaradas

Há medíocres
imbecis
preconceituosos
mas é grande o número dos puros
dos simples
dos que crêem no amor

A água não secou em todos os rios
nem todas as mulheres são estéreis
se alguns ainda querem guerra
é grande a esperança da paz…

Nem tudo está perdido irmãos
Nem tudo está perdido amadas.

 

OITICICA

A Anarquia

De José Oiticica

 

Para a anarquia vai a humanidade
Que da anarquia a humanidade vem!
Vide como esse ideal do acordo invade
As classes todas pelo mundo além!

Que importa que a fração dos ricos brade
Vendo que a antiga lei não se mantém?
Hão de ruir as muralhas da Cidade,
Que não há fortalezas contra o bem

Façam da ação dos subversivos crime,’
Persigam, matem, zombem… tudo em vão…
A idéia, perseguida, é mais sublime,

Pois nos rude ataques à opressão,
A cada herói que morra ou desanime
Dezenas de outros bravos surgirão.

 

WILSON

Caititu, Cruz credo, que bicho é esse aleluia, saravá

De Wilson Jr.

 

Era um bicho do mato, que vivia plenamente  

produzindo e reproduzindo a vida coletivamente.

Hoje vivi ser humano, aprisionado na selva de pedra

Por ele construído pra ser alimento e abrigo.

Ao levantarem as cercas não se deu conta do perigo,

do fruto do seu trabalho foi expropriado (roubado).

Depois de um tempo, naturalizou-se solitário

Achado que tudo podia, senhor do seu próprio destino.

Agora vive intimidado, acuado, cabisbaixo 

procurando no fundo do seu eu

alguém ou algo que possa justificar  sua existência.

Cruz credo, Aleluia, Saravá

Sinto muito meu amigo não adiantam apelar

Sozinho não é possível enfrentar o capitalismo

e seu modelo civilizatório.

Com seus esqueletos nos borrões 

Sua fé empacotada

Sua moral patriarcal

Sua propriedade privada

 

Em suas veias, correm  rios pastosos envenenados de lixo e agrotóxico

 Sua alma cheira a sangue de negros e índios,

 homens, mulheres,  jovens, pobres favelados.

É preciso se emanar

Se reconhecer no outro

Agrupar -se

entrincheirar-se

Coletivizar -se 

Caitituzar-se

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