De delegado sindical a diretor do Sindibancários: entrevista com Igor Bongiovani

O sindicalista relata a sua experiência como delegado sindical, fala das características que alguém que ocupa essa posição deve ter e como sua atuação como delegado o motivou a ingressar na diretoria do Sindicato.

As eleições para delegado sindical da Caixa estão se aproximando. Por isso, o Sindibancários preparou uma série de matérias e entrevistas semanais para esclarecer possíveis dúvidas da categoria, como qual o papel dos delegados sindicais, sua importância para a mobilização dos trabalhadores e trabalhadoras, entre outros assuntos. Abaixo, entrevista com o diretor do Sindicato dos Bancários/ES, Igor Bongiovani, que já passou pela experiência de atuar como delegado sindical da Caixa.

1 – O que te motivou a ser delegado sindical?

Quando entrei no banco tive a oportunidade de ter meus primeiros contatos com o movimento grevista dos bancários, com outros delegados sindicais e passei a compreender aos poucos, qual a função e papel de um sindicato de luta. Em 2013 me tornei delegado sindical pelo convite da também diretora e Secretária de Formação Sindical Renata Rodrigues. Fui eleito na minha unidade e posso dizer hoje que a principal motivação de ter me colocado à disposição nesse papel foi a insatisfação diante da total falta de condições de trabalho que o banco nos oferecia e nos oferece até hoje, foi a indignação de ver que cada vez mais bancários e demais trabalhadores adoeciam e tinham que recorrer a remédios tarja preta para conseguir trabalhar e ser pressionados a produzir um lucro pro sistema financeiro que jamais teriam. Foi o desejo de protagonizar de fato os acontecimentos e não ser mero coadjuvante na luta por uma sociedade melhor, com mais direitos, com mais inclusão, com mais qualidade de vida para todos e menos repressão. Esse deve ser o espírito e o sentimento de um delegado sindical, de coragem, não abaixando a cabeça para os desmandos que vivemos, se omitir diante de uma injustiça ou qualquer ato que coloque um empregado em situação de precariedade no local de trabalho é tornar-se também autor das péssimas condições de trabalho que acometem os trabalhadores.

2 – Como foi sua experiência nessa função?

Minha experiência foi a melhor possível, o Sindicato dos Bancários/ES foi e é uma escola para mim, aprendi coisas que não aprenderia em toda a minha vida, pude perceber cada vez mais como nossa sociedade se coloca de uma forma contraditória em seu papel, exaltando o individualismo e negando o coletivo, que nos é fundamental. Obviamente essa sociedade esta inserida dentro de um contexto e dentro de uma estrutura econômica que influencia e age a todo momento para isso, mas, de qualquer forma, essa ação faz a sociedade se encaminhar para a barbárie, essa que estamos vivenciando atualmente. Isso se reflete dentro do mercado de trabalho, dentro das agências, dentro de todas as empresas. A estrutura capitalista precisa de uma classe trabalhadora individualizada, fragilizada, negada por quem controla o sistema econômico de seu devido papel e, principalmente, longe de seus ideais e de sua luta, porque é exatamente no coletivo que mora a força da classe operária e da categoria bancária. Nós temos esse papel de mudar o cenário. Nem tudo foram flores. Simultaneamente com o aprendizado vêm os confrontos que fazem parte da luta, os questionamentos por adotar uma postura de enfrentamento, um pensamento fora “da caixa”, mas tudo isso faz parte do processo e hoje aconselho a todos a serem delegados sindicais e a terem o privilégio, como eu tive, de fazer parte de um coletivo que luta por nossos direitos.

3 – De que forma a atuação como delegado sindical te motivou a se tornar diretor do sindicato?

Acredito que seja uma consequência. Quando nós assumimos esse papel de ser liderança e referência entre os trabalhadores, seja na unidade de trabalho ou em toda a categoria bancária, as coisas fluem, e cada vez mais você precisa de espaço para dar voz à luta, aos ideais da categoria e da classe trabalhadora pra mudar o ambiente de trabalho, às condições de vida e, principalmente, conscientizar os demais trabalhadores de que não se luta sozinho, se luta em conjunto. Todos os nossos direitos que foram arrancados, e conquistados de forma brilhante ao longo do tempo, foram conquistas coletivas. Infelizmente hoje os que entram no banco não têm essa consciência. Nós precisamos ir resgatando aos poucos esse histórico e mostrar a realidade, que, infelizmente, não é essa fantasia maravilhosa que o banco diz. Nesse sentido, o papel que se assume quando se tem um mandato de diretor sindical é de ampliar a luta e dar mais voz aos anseios de todos trabalhadores.

4 – Você é diretor de base, ou seja, continua trabalhando no banco, assim como os delegados sindicais. Qual é a diferença entre estar em meio à base enquanto diretor e enquanto delegado sindical?

A principal diferença é a amplitude e uma maior responsabilidade que se alcança na categoria. Não que um delegado sindical não possa também alcançar. Isso, inclusive, é nosso objetivo junto a eles, mas quando se é eleito por milhares de trabalhadores para os representar diante dos conflitos e problemas que surgirão, nós temos que ter um papel de protagonistas nesse sentido ainda mais forte. Os delegados sindicais são fundamentais nessa luta, são os olhos do sindicato dentro das unidades e no dia a dia dos bancários. Desempenham um papel importante, além de ser uma conquista a ser preservada, a diferença é que ele é eleito pela unidade e somente pelos trabalhadores do próprio banco. Os diretores são eleitos por todos bancários que abrangem a região do sindicato, no nosso caso estadual. Mas devemos reforçar sempre, tanto o diretor sindical quanto o delegado sindical não fazem milagres. Temos uma maior influência e responsabilidade de ser o balizador para a categoria, mas a luta é de todos. Todos são bancários e os ataques atingem desde os que possuem cargos de gestão até os que não possuem. A coletividade precisa falar mais alto e lutar juntos. Nesse sentido, todos possuem a mesma responsabilidade enquanto trabalhadores, que é a de garantir seus direitos. A história no mundo, seja nas revoluções que ocorreram, nas revoltas e greves gerais, nos mostram que o que temos hoje custou a vida de muitas pessoas e por uma questão de humanidade e respeito temos sempre que nos lembrar e continuar lutando pra avançar nas conquistas e por uma sociedade diferente desta, mais humana e mais responsável em sua existência.

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