Entrevista: “Hillary é a candidata do grande capital nos EUA”

Dan Botz, professor e sindicalista estadunidense diferencia Bernie Sanders e Hillary Clinton, que disputaram a vaga democrata na corrida presidencial, vencida pela última.

Bernie Sanders despontou nas primárias do Partido Democrata como um sopro de vento fresco no deserto abrasivo da política estadunidense. Ameaçou potencialmente as pretensões de Hillary Clinton e conquistou a simpatia da classe média e da juventude americana ao defender a ampliação das políticas públicas para saúde e educação, uma nova abordagem para a política externa com a desmilitarização do país, por exemplo, e também ao expor o empobrecimento das pessoas sob a dura influência dos bancos e das corporações na economia e na política dos EUA.

O neoliberalismo incensado pelos economistas e operadores de Wall Street, e ressuscitado pelo governo golpista de Michel Temer, tem sido rechaçado por pessoas que têm sentido vazar por suas mãos o sonho americano construído à base de um estado forte e de bons salários. Milhões de norte-americanos tem se manifestado em atos pró-Bernie, seja nas ruas ou nas redes sociais, para dizer não ao arrocho e ao aumento das desigualdades no país que um dia foi chamado de terra das oportunidades.

Sanders tem no currículo ainda outra façanha: sua campanha é responsável por tornar o socialismo uma pauta popular entre o americano médio. Uma vitória contra a ignorância que manteve os EUA em guerra permanente por quase um século.

Nesta entrevista, o professor universitário e sindicalista Dan Botz apresenta a candidatura de Bernie Sanders e a diferencia da de Hillary Clinton, vencedora das primárias e primeira mulher a concorrer numa eleição presidencial estadunidense. Com Bernie, aponta Botz, “teríamos uma América Latina mais rica e estável!”

Professor, quem é Bernie Sanders?

Sanders é um político e ativista estadunidense. Sua atuação começou na década de 1960, no movimento pelos direitos da comunidade negra e se consolidou em Vermont, pequeno estado que o elegeu para mandatos no Congresso e no Senado. Sua atuação política sempre foi pautada pela luta dos mais pobres e das minorias e contra o militarismo que marca os EUA. Ele tem outras perspectivas, atuando sempre de forma independente. Nunca foi do partido democrata nem do republicano, coisa rara nos EUA até entrar nas eleições primárias de 2016. Ele é a pessoa mais progressista, o mais liberal, progressista, entre os políticos americanos.

E Hillary Clinton, sua concorrente nas primárias, como podemos entender a candidatura dela?

Hillary é sócia das políticas de seu marido. Na campanha fala delas, defende-as. O que não diz é que as políticas de Bill Clinton empobreceram os americanos. As mudanças feitas por ele na justiça, por exemplo, são responsáveis pelo aumento do encarceramento de latinos e negros. Hillary, inclusive, participou da criação dessas políticas, e posteriormente foi senadora durante o primeiro governo de Obama e, no segundo, secretária de Estado.

Sua atuação é favorável às soluções militares estadunidenses que deixaram marcas desastrosas no Oriente Médio, principalmente na Líbia. Além disso, ela foi apoiadora do golpe de estado em Honduras. Hillary tem a mesma constelação de relações e interesses dos democratas que governaram nos anos 90 e que atualmente estão no poder. Sua candidatura é favorável aos bancos e às corporações. O gabinete dos Clinton, inclusive, fica em Wall Street. Hillary é a candidata do grande capital nos Estados Unidos.

Como você diferencia o apoio recebido pelos dois candidatos nos Estados Unidos?

Para responder a essa questão preciso voltar à crise econômica de 2008 e ao movimento Ocuppy Wall Street, pois as reivindicações do Ocuppy tomaram forma na campanha de Sanders. O Ocuppy foi o primeiro movimento social de grandes proporções em 40 anos nos Estados Unidos. Ele é responsável por uma mudança completa no discurso político do cidadão comum. Pela primeira vez as pessoas expressaram a crescente desigualdade na sociedade e o papel das grandes corporações e bancos na política. O movimento se alastrou pelo país, de Nova Iorque à Chicago, passando por Cincinatti, em Ohio, e diversas outras cidades. Eu fui detido, inclusive, pela polícia por me manifestar contra os bancos em um parque público de Chicago. Apesar do alastramento, o movimento foi desmantelado por uma coordenação da Casa Branca em todos os estados, apesar dos ativistas do Ocuppy, majoritariamente, serem do partido Democrata.

Outro movimento que possui um papel importante na campanha de Sanders é o Black Lives Matter. No início, o BLM criticou o candidato sem conhecer seu histórico na luta racial. Foi um momento oportuno para Sanders se aproximar e começar um diálogo frutífero com o a comunidade negra. Essas conversas produziram modificações na plataforma da campanha, mas não foram modificações oportunistas, mas uma assimilação do BLM. Bernie é aberto a essas relações.

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Bernie Sanders em atividade de campanha. Foto: Campanha Sanders.

Há um grupo de sindicalistas, o Labors for Bernie, que tem organizado lutas em várias cidades e representa algo para a candidatura. Ela é formada por um grupo de sindicalistas, gente ativa em sindicatos, que tem lutado para democratizar as entidades, cobrando mais militância da parte delas. Eles apoiam a candidatura.

Obviamente a candidatura de Hillary não tem nada a ver com o Ocuppy, pois o movimento é uma crítica aos seus amigos e principais aliados, ou com o BLM. Ainda assim ela vem conquistando a maioria dos votos da comunidade negra por buscar nas mães de jovens assassinados endosso nessas comunidades. Quando vai às comunidades, Hillary mostra as mães. O trágico é que essas mães perderam seus filhos devido às políticas de Bill Clinton, políticas que levaram a comunidade negra em muitas cidades a condições catastróficas de emprego, saúde, violência. Bem, Hillary é uma mulher muito inteligente.

Como podemos entender o movimento criado em torno da candidatura de Bernie? Podemos dizer que ele é coincidente com movimentos sociais da última década as primaveras no Oriente, o 15M espanhol, ou o junho no Brasil?

Eu diria que não. Há pouca continuidade em relação às primaveras. A candidatura de Bernie não parte da esquerda porque a esquerda clássica dos EUA é tão pequena que não significa nada nesta campanha. Eu diria que esses movimentos surgiram e desapareceram. A campanha de Sanders não tem só ativistas que partiram do Ocuppy ou do BLM. Estamos falando de milhões de pessoas que apoiam e votarão nele nas primárias, inclusive jovens que estão tendo a primeira experiência na política. Eles abriram os olhos e parecem ver um mundo novo possível para eles. É a primeira vez que vão votar em muitos casos. O movimento em prol da candidatura de Barnie parece as ações de rua no Brasil, reúnem 10, 20 mil pessoas, como nunca antes havia se visto nos EUA. Onde vivo houve uma manifestação de 28 mil pessoas pró-Sanders. É refrescante.

As contribuições para sua campanha também são espontâneas e partem de milhões de pessoas. Geralmente giram em torno de R$ 27,00. É uma forma de financiamento diferente, pois os outros candidatos recebem doações de bancos, petroleiras etc. A campanha de Sanders tem outro caráter.

O senhor descreve movimentos de massa. O que esses movimentos estão dizendo? O que essas pessoas tentam dizer apoiando Sanders?

Milhões de estadunidenses estão insatisfeitos com o governo, com a falta de trabalho e com o salário mínimo, porque é impossível viver com ele. Outros estão com a política estrangeira de guerra permanente. Outros com as mentiras do atual governo e com sua aliança à política neoliberal e com os demais candidatos que no partido republicano são atrozes em relação ao racismo e ao conservadorismo. O apoio a Bernie é a afirmação da busca por outro tipo de sociedade, outro tipo de vida.

Que mudança ocorreu com a juventude americana?

Vou falar primeiro sobre minha geração. Fui motorista de caminhão em Chicago por um período e quando falava com meus colegas de trabalho, mesmo os próximos aos sindicatos, sobre o socialismo, encontrava muita resistência. O anticomunismo era visceral. Praticamente todos os meus amigos haviam perdido familiares nas guerras da Coreia e do Vietnã. Tudo que tinha haver com o comunismo ou com o socialismo era visto como algo ruim, pois existia o sentimento de perda, a dor além da propaganda contra as experiências socialistas do século XX. Tudo isso parece ter mudado. O socialismo não é mais tabu. Nossa guerra injusta agora é contra os muçulmanos. Diria que a islamofobia substituiu o anticomunismo.

Quando se lê sobre Sanders, muitas vezes encontramos o termo socialista democrático para designá-lo. O que se pode entender por socialismo democrático e como ele seria colocado na vida do cidadão médio?

Sanders não fala de socialismo real, mas abre a porta para a discussão sobre ele. Eu creio que falar de socialismo democrático é em si mesmo um avanço, um passo importante, pois pela primeira vez em 70 anos podemos falar em socialismo sem ranço e ódio. O Google bate diariamente recordes de pesquisa com o termo socialismo. Com Sanders, não estamos falando da experiência soviética, entretanto, mas de um tipo de governo parecido com o da Dinamarca, que sempre serve de exemplo à sua campanha. Do que falamos então, sabendo que a Dinamarca não vive o socialismo? A ideia de Sanders de socialismo democrático não é nada mais que o New Deal de Roosevelt. Não é de um socialismo que falamos, mas do liberalismo progressista que marcou os Estados Unidos entre as décadas de 1930 a 1970.  Falamos de estado forte, de políticas governamentais de bem estar para os velhos, saúde acessível para a população empobrecida. Sanders é contra nacionalizar qualquer indústria, por exemplo.

De que forma a eleição de Bernie influenciaria a América Latina?

Certamente Bernie teria outra política estrangeira, menos agressiva e militarizada. Acredito que cumpriria sua promessa de integração dos povos das Américas intensificando as trocas, deixando a relação entre os países latinos e os EUA menos exploratória. Teríamos uma grande mudança e, consequentemente, uma América Latina mais rica e estável. O grupo de Hillary Clinton, entretanto, tem apoiado ações autoritárias no Oriente Médio e na América Latina. Ele participaram e apoiaram o golpe em Honduras e no Paraguai.

Qual o papel do sindicalismo na campanha de Sanders?

Nos EUA, apenas 9% dos trabalhadores são sindicalizados. No setor privado o número é ainda menor, são apenas 6,9% deles. Existem pouquíssimas greves por lá. O sindicalismo é muito fraco e está reduzido a um grupo pequeno de trabalhadores. Por outro lado, a Federação Nacional dos Trabalhadores tem 110 milhões de membros, ainda que possua uma baixíssima representação. A maioria dos sindicatos está sob o controle de burocratas, que não querem se envolver em lutas. São parceiros dos democratas e almejam a permanência do partido no governo. Obviamente não há conversa com os republicanos

Os grandes sindicatos apoiam Hillary, mas muitos dos filiados votam em Sanders. O Labors for Bernie. Há décadas os trabalhadores deixaram por conta das lideranças sindicais o papel de escolher o candidato a ser apoiado e os seguiam. Nesta campanha alguns sindicatos locais apoiam Bernie que impacta na estrutura sindical existente. Os trabalhadores sindicalizados estão se dando conta de que têm direito de opinar e decidir quem vai ser o candidato apoiado pelo seu sindicato.

A relação dos sindicatos com a família Clinton é antiga, por outro lado. Eles endossam Hillary. É uma situação interessante, pois existem sindicatos como o dos profissionais da comunicação, dos correios e das enfermeiras que fazem um contraponto. As enfermeiras, especialmente, têm um papel importante nessa campanha. São geralmente mulheres que apoiam Bernie por causa de sua plataforma, e não Hillary por ser mulher. Houve um debate fascinante entre a juventude e as mulheres mais velhas. A juventude questiona o posicionamento favorável à Hillary por causa de seu gênero e perguntam: você vai votar pelo gênero ou pelo pensamento político?

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