Especial: reestruturação do BB é uma das mais cruéis dos últimos anos

Confira reportagem especial sobre os impactos da reestruturação do Banco do Brasil, publicada em edição especial do jornal Correio Bancário.

A realização do Dia de Luta foi deliberada após a recusa do Banco do Brasil em dialogar com os trabalhadores

A realização do Dia de Luta foi deliberada após a recusa do Banco do Brasil em dialogar com os trabalhadores

Desde o dia 20 de novembro, data em que o Banco do Brasil anunciou o projeto de reestruturação, o clima nas agências é de apreensão. As medidas de descomissionamentos, fechamento de agências e corte de postos de trabalho projetam para os trabalhadores um futuro de incertezas, tanto sobre o seu posicionamento no banco, quanto sobre as condições de trabalho.

Caracterizada como desmonte, a reestruturação tem gerado protestos em todo o país. Na última quarta-feira, 07, em Dia Nacional de Luta, bancários e bancárias capixabas abraçaram o prédio da Pio XII, onde funciona a direção geral do banco, em ato simbólico de defesa do BB e do seu corpo social, atacados pelo governo golpista de Temer.

Ao todo, cerca de nove mil vagas serão extintas, 402 agências fechadas e 379 transformadas em Postos de Atendimento (PA). No Espírito Santo, serão atingidas diretamente quatro unidades, a Moscoso e a Rio Branco, que serão fechadas, e as agências Expedito Garcia e Jardim Limoeiro, que serão transformadas em PA.
Para garantir o enxugamento do quadro, um Plano Extraordinário de Aposentadoria Incentivada (PEAI) foi lançado com possibilidade de atingir 18 mil empregados. Até o dia 7, mais de 8.500 funcionários haviam aderido – número que, segundo estimativa do banco, deve chegar a 10 mil até o dia nove de dezembro, prazo limite para a adesão.

O “sucesso” do PEAI se deve mais à frustração dos empregados com a gestão do que às vantagens oferecidas pelo plano. O sentimento para os que dedicaram a vida à carreira bancária é de abandono. O medo da reforma da previdência pautada pelo governo federal também foi um incentivo para a adesão.

O “sucesso” do PEAI se deve mais à frustração dos empregados com a gestão do que às vantagens oferecidas pelo plano. O sentimento para os que dedicaram a vida à carreira bancária é de abandono. O medo da reforma da previdência pautada pelo governo federal também foi um incentivo para a adesão.

A reestruturação é considerada a maior das últimas décadas. Só nos anos 90, três grandes reestruturações aconteceram, a principal delas durante 1995 e 1996. O número de funcionários, que no início da década era de 120 mil, chegou a 90 mil no início dos anos dois mil. Em 2007, em nova reestruturação, 7.500 bancários deixaram o banco por meio de programa de aposentadoria incentivada. As mudanças que se seguiram foram de menor impacto, mais setorizadas, como as que atingiram a Diretoria de Controles Internos (DICOI) e a Gerência de Comércio Exterior (GECEX), em 2015. Todas elas, porém, no sentido de adequar a gestão às exigências do mercado financeiro, tendo como exemplo os bancos privados, objetivo que continua orientando as mudanças recentes.

Corte de funções será grande

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Em plenária realizada no dia 1º de dezembro, os bancários discutiram junto ao Sindicato as consequências da reestruturação, recebendo orientações da assessoria jurídica da entidade.

O corte de funções deve provocar uma realocação nacional dos empregados, mas a preocupação maior é com os que perderão definitivamente a comissão, muitas vezes responsável por mais de 50% da verba salarial. É o caso dos cargos de maior hierarquia, como gerente geral, de negócios ou de segmento.

O impacto na vida das pessoas é gigantesco, destaca José Carlos Noronha, delegado sindical do BB que trabalha na agência Jucutuquara. “A pessoa tem a vida organizada em torno do salário que ela recebia. Com base nesse orçamento, escolheu onde morar, planejou a família, definiu a escola dos filhos. É um baque muito forte”, diz.

Em função da falta de informações, não há como precisar o número de descomissionamentos, mas uma coisa é dada como certa: não existirão vagas para todos. “Não vai haver vagas suficientes, principalmente nas funções médias. Os ajustes vão acontecer em nível nacional, com remanejamento até entre estados. Muitos ficarão sem a comissão, tendo que se adequar em funções de menor salário”, diz Thiago Duda, diretor do Sindicato.

Os empregados terão o direito de continuar recebendo a mesma remuneração por 4 meses após o descomissionamento, conforme previsto no Acordo Coletivo de Trabalho. O direito é chamado de Vantagem de Caráter Pessoal (VCP), mas foi apelidado de “esmolão” pelos funcionários. Não por acaso, a maioria dos comissionados completaria 10 anos na função em 2017, quando seria possível requerer na justiça a incorporação da função em caso de descomisisonamento.

Negociações nacionais

O Sindicato dos Bancários está acompanhando as negociações nacionais que buscam reverter ou, em último caso, reduzir os impactos das medidas. A orientação é que os bancários aguardem o resultado nas negociações e fortaleçam as mobilizações realizadas para pressionar o banco.

“Essa é uma das reestruturações mais cruéis feitas pelo BB. Além de não dar informações, a direção do banco coloca os empregados na berlinda. A maior parte das realocações será com perdas salariais, criando uma competição que coloca um funcionário contra o outro. É perverso. Por isso temos que fortalecer a mobilização, mostrar nossa indignação e nossa força”, diz Goretti Barone, dirigente sindical.

Desinformação

Bancários e entidades representativas foram informados das mudanças por meio da imprensa nacional, sem receber por parte da direção do banco qualquer notificação que antecipasse a intenção de reestruturar a instituição. Quase vinte dias após o anúncio, a desinformação dos empregados continua.

Descomissionamentos

O BB se nega a repassar aos representantes sindicais detalhes sobre os descomissionamentos ou sobre os procedimentos de realocação, de modo que todas as informações levantadas são fruto de cruzamento de dados obtidos com a colaboração dos empregados de base.

“Não sabemos como ficará a dotação das agências, quantas pessoas efetivamente vão sair. É difícil até calcular o impacto dessa redução no atendimento, porque tudo está muito obscuro”, diz Thiago Duda, diretor do Sindicato.

Sessenta vagas já foram cortadas no Espírito Santo, reduzindo de 1450 para 1390 a dotação estadual. Mas a defasagem pode aumentar se for considerado que 200 empregados no Estado já solicitaram adesão ao PEAI.

Adoecimento

O clima de tensão e de ansiedade nas agências tem contribuído com o adoecimento de bancários e bancárias. A orientação do Sindicato é que, qualquer empregado que tenha sua saúde afetada pelo estresse do trabalho peça a emissão da CAT e procure a Secretaria de Saúde do Sindibancários/ES.

Banco usa comissão para burlar jornada de 6 horas

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Dia de luta paralisou agências Rio Branco, Expedito Garcia, Jardim Limoeiro, Glória, Jucutuquara e o prédio da Pio XII (foto), no dia 29 de novembro

A reestruturação também é um instrumento do BB para tentar reduzir o seu passivo trabalhista, já que a organização do plano de carreira do banco é alvo de diversos embates judiciais.

Assim como outros bancos, o BB utiliza muitas de suas comissões para evitar o escalonamento de um Plano de Cargos e Salários e burlar a jornada de 6 horas da categoria. Os bancários recebem uma comissão sem que a função exija, realmente, fidúcia ou relação de chefia. Assim, o empregado passa a cumprir uma jornada de oito horas recebendo a comissão em substituição ao pagamento de horas extras – uma troca muito lucrativa para o banco. A manobra vem sendo questionada em ações coletivas por sindicatos em todo o país, com ganho de causa recorrente para os bancários.

Em função do número de processos na Justiça do Trabalho, o banco eliminou todas as vagas de assistentes de 8 horas. Atualmente, cerca de 90 bancários se mantêm na função, que será extinta à medida que estes se desvincularem do banco. Nesse sentido, a reestruturação é um instrumento para acabar de forma mais rápida com os assistentes de 8 horas. Mas vale lembrar que, como não foram divulgados critérios para o descomissionamento, nem mesmo os assistentes de seis horas estão garantidos na função.

“Se uma agência tiver reduzido o número de vagas para assistentes, não há nenhuma regra que indique que o de oito horas perderá a função. Isso está em aberto. Tanto os assistentes de oito horas como os de seis podem ser prejudicados, por isso precisamos enfrentar coletivamente essas mudanças. Não podemos pensar numa saída individual enquanto o colega ao lado é massacrado pelo banco”, diz o dirigente sindical Derik Bezerra.

Também não está definido a quem cabe a decisão, no exemplo citado, sobre o descomissionamento. Há quem diga que será do Comitê de Administração da agência, da Superintendência ou da Diretoria de Gestão de Pessoas. Novamente, a desinformação agrava o clima de tensão nas agências.

“É um desrespeito com a categoria e com o movimento sindical. São medidas que afetam drasticamente a vida dos empregados e é necessário que sejam comunicadas com antecedência e debatidas com o corpo social do BB. Não houve nenhum diálogo por parte da direção banco, pelo contrário, estão tratando os empregados com desdém”, critica Goretti Barone.

O processo de remanejamento e escolha de vagas deve ser feito até 1º de fevereiro de 2017. Os assistentes que não conseguirem vaga igual ou equivalente até lá perderão a comissão e serão lotados como técnicos bancários.

Reestruturação segue lógica de mercado

Os argumentos do banco para a reestruturação referem-se, de modo geral, à necessidade de manter a sua saúde financeira, se ajustando às regras de mercado internacional. Na prática, as medidas representam um enfraquecimento do banco, com enxugamento do seu corpo social e redução do seu caráter público.

“A reestruturação tem consonância com a nova política econômica do governo, de ajuste fiscal, contenção de despesa e redução do Estado. Segue um viés neoliberal, numa economia projetada para a iniciativa privada”, avalia a economista do Dieese Regina Camargos, que atua na subseção da Contraf.

Regina lembra que o momento é semelhante ao dos anos 90, quando também aconteceram diversas reestruturações no BB. Para a especialista, as mudanças afunilam a gestão para uma atuação mercadológica, em detrimento do seu papel público.

“Por se tratar de um banco misto, o BB já tinha uma orientação mais mercadológica que a Caixa, por exemplo. Além de alavancar a economia do país, também precisava remunerar seus acionistas. O fato é que agora estamos regredindo, fazendo com que o BB opere estritamente numa lógica privada, e não numa lógica pública, de ampliação e democratização do acesso ao crédito. Essa função vai sendo diminuída por orientação da política neoliberal do governo Temer”, salienta Carmargos.

Outro fator alardeado para justificar a reestruturação é a redução do lucro, ocasionada em muito pelo crescimento das Provisões para Crédito de Liquidação Duvidosa (PCLD), que são problematizadas por Thiago Duda.

“As PCLD estão concentradas em empréstimos de grandes empresas, o que evidencia a prioridade dada ao setor privado. Se as empresas quebram, o impacto é enorme. É o que acontece com Oi, Sete Brasil e OAS – todas com grandes financiamentos no BB”, diz Thiago. “Como banco público, o BB deve repensar a política de crédito para impulsionar a economia e promover um desenvolvimento que reduza a desigualdade”, conclui.

Atendimento digital

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A ampliação da digitalização é uma das metas fortalecidas pela reestruturação. O banco prevê, ainda em 2017, a abertura de 255 unidades de atendimento digital, entre escritórios e agências, que se somarão aos 245 já existentes. No Espírito Santo, as primeiras agências digitais foram criadas em maio de 2016. Na ocasião, duas agências físicas (Vale e Praia do Suá) foram fechadas e tiveram suas carteiras migradas integralmente para o modelo digital.

“O modelo desumaniza o atendimento e prepara terreno para a terceirização. A digitalização vem acompanhada de corte de empregados e aumento da sobrecarga de trabalho, precarizando a atividade laboral e o atendimento em todos os níveis”, aponta Thiago.

O presidente do BB, Paulo Rogério Caffarelli, insiste em dizer que a ampliação do segmento digital é uma atualização para atender à necessidade da clientela. Contudo, apenas 9,4 milhões de clientes, que correspondem a 15% da carteira de clientes do banco, utilizam o aplicativo do BB para celular. A intenção é expandir esse público para 15 milhões até dezembro de 2017. “Ou seja, não é o banco que se adequa aos clientes, mas os clientes que precisam se adaptar à nova realidade do banco, já que não haverá estrutura física capaz de atender a população”, diz Duda.

Thiago chama atenção ainda para o processo de elitização da instituição financeira, já que o modelo digital privilegia um segmento de clientes de alta renda, com maior acesso à tecnologia. “Novamente a população mais pobre vai ficando alijada dos serviços bancários, sendo empurrada para os correspondentes”, conclui.

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