Estudantes de São Paulo ocupam mais de 200 escolas em protesto contra sucateamento da educação

Há quatro semanas mais de 200 escolas estaduais de São Paulo foram ocupadas por estudantes, professores e pais de alunos. Eles protestam contra a iniciativa do Governo Alckimin (PSDB) de fechar 94 colégios, conforme anúncio feito em setembro. De acordo com o professor e integrante da Executiva Nacional da Intersindical, Matheus Lima, o Governo Alckimin […]

Há quatro semanas mais de 200 escolas estaduais de São Paulo foram ocupadas por estudantes, professores e pais de alunos. Eles protestam contra a iniciativa do Governo Alckimin (PSDB) de fechar 94 colégios, conforme anúncio feito em setembro. De acordo com o professor e integrante da Executiva Nacional da Intersindical, Matheus Lima, o Governo Alckimin afirma que irá fazer uma separação dos estudantes por faixa etária nos estabelecimentos de ensino (das séries iniciais até o quinto ano, do sexto ao nono e ensino médio). Porém, na prática, a proposta é a transferência de alunos de escolas menores para escolas maiores onde há salas vazias.

“Essa iniciativa irá trazer superlotação para as salas de aula, redução do número de profissionais em geral, inclusive professores; perda de turnos, como o noturno; e extinção de modalidades de ensino. A política de educação do Governo Alckimin é orientada no ajuste fiscal, no corte de gastos para reduzir investimento em educação, sem diálogo com a comunidade escolar e sem uma justificativa pedagógica que faça algum sentido”, afirma Matheus.

Repressão Policial

Em reunião realizada no dia 29 de novembro com os dirigentes regionais de ensino de São Paulo, o chefe de gabinete do Secretário Estadual de Educação Herman Jacobus, Fernando Padula Novaes, afirmou que é preciso organizar “ações de guerra” para ganhar e desmoralizar quem luta contra o fechamento das escolas. De acordo com Matheus Lima, após essa reunião, cujo conteúdo se tornou público em virtude do vazamento de um áudio, a repressão aumentou. “O Governo entrou com ação pedindo reintegração de posse, mas a Justiça entende que ele não perdeu posse, pois os alunos não invadiram um espaço, pois a escola é deles. Por causa disso, o Governo decidiu reforçar a violência como forma de enfraquecer o movimento”, relata.

A estudante do segundo ano do ensino médio, Rafaela Boani de Queiroz Bonifácio, 16, que está participando das ocupações, afirma que um grupo de policiais militares disse que usaria a “força maior” caso não fosse aberto o portão da escola onde ela se encontra com outros estudantes. “Nos recusamos a abrir, mas como forma de intimidar eles ficaram uns 30 minutos na frente do portão antes de ir embora. Acredito que não somente no colégio em que estou, mas em todos, existe o medo da polícia invadir à noite, principalmente depois do vazamento do áudio”, diz Rafaela.

Protagonismo Juvenil

Mazé resiste

Estudantes que participam da ocupação da Escola Estadual Maria José (Mazé), em São Paulo (Foto: Jornalistas Livres)

 

Mais do que mostrar a escola que não querem, por meio das ocupações os estudantes buscam mostrar a escola que eles querem. “Durante as ocupações estamos promovendo diversas atividades culturais. Para quem está de fora, pode parecer festa, mas não é. Queremos mostrar para o Governo do Estado que somos capazes de propor atividades educativas, que podemos contribuir para uma educação de qualidade. Inclusive, trouxemos aqui um artista chileno que participou de uma ocupação no Chile que durou sete meses”, declara Rafaela.

De acordo com a estudante, o diálogo com os pais têm sido constante, por exemplo, por meio de reuniões tanto com aqueles que concordam quanto com os que discordam do movimento. “Queremos ouvir os dois lados para reforçar para ambos o porquê de estarmos ali, a importância de estarmos ali. Muitos pais, inclusive, têm dormido com a gente na escola”, afirma. Quanto à experiência de militância, a secundarista afirma que é uma lição para a vida inteira. “É espetacular, muito bacana. Minha mãe fala que cresci muito nas últimas três semanas, que amadureci bastante”, relata.

No Espírito Santo, descaso com a educação também impera

Escola Viva

 

Estudantes em protesto contra o Projeto Escola Viva (Foto: Mídia Ninja/ES)

 

Se a situação em São Paulo é de total descaso com a educação, no Espírito Santo não é diferente. Pouco tempo depois de assumir seu terceiro mandato, o governador Paulo Hartung (PMDB) anunciou o Projeto Escola Viva, encontrando grande resistência da comunidade escolar. “É um projeto de governo excludente, pois em nenhum momento pais, estudantes e professores puderam participar da sua elaboração. Ele também exclui principalmente os alunos que precisam conciliar o trabalho com os estudos, pois concentra o estudante durante nove horas diárias dentro da escola. Vale lembrar que os colégios de período integral, como os do Escola Viva, não oferecem curso noturno”, afirma o professor do Colégio Estadual Weriquison Curbani.

Ele salienta que se o projeto fosse implementado no estabelecimento de ensino onde ele leciona metade dos alunos não encontrariam vaga. “Atendemos cerca de 750 alunos de manhã e 750 à tarde. Numa escola de turno integral não conseguiríamos comportar 1500 alunos durante o dia inteiro e ainda teríamos que abolir o turno noturno”, diz o professor, que aponta irregularidades na implantação do Escola Viva. “Ele foi colocado em prática no antigo prédio da Faesa, em São Pedro, sem autorização do Mec e sem número do INEP, por exemplo”, ressalta.

A também professora Suelen Lievore faz críticas ao tipo de formação que o Programa Escola Viva quer transmitir para os alunos. “Esse projeto é uma parceria público privada com o Instituto de Corresponsabilidade pela Educação, com uma equipe de gestão privada cujo propósito é uma lógica de formação voltada somente para o mercado”, enfatiza Suelen.

Fechamento de turmas

Além do Escola Viva, o governo Paulo Hartung vem desmantelando a educação pública estadual por meio de fechamento de turmas em várias escolas. Segundo denúncia feita pelo deputado estadual Sérgio Majeski, a Secretaria de Estado de Educação teria encaminhado comunicado à direção de várias escolas orientando os diretores a não realizarem novas matrículas no período noturno para o ano letivo de 2016, entre outras restrições.

O objetivo do governo estadual é fechar gradualmente turmas do Ensino Médio (especialmente o noturno), extinguir as turmas de Educação de Jovens e Adultos (EJA) e redirecionar turmas do Ensino Fundamental (separando por turno ou por escola). Uma das primeiras escolas a serem fechadas, seria a Estadual Maria Ericina Santos, localizada no morro da Santa Clara, no Parque Moscoso.

O mesmo acontece em outros estabelecimentos de ensino, como a Escola Estadual Hunney Everest Piovesan, no bairro Santa Fé, em Cariacica, onde estuda Layla Kellen da Costa Schineider. Nesse colégio o Governo do Estado quer fechar o turno noturno, o curso de EJA e reduzir o número de turmas de 45 para 20. “Sou aluna do turno noturno e não posso largar meu trabalho para estudar de dia. Mesmo se pudesse, haveria dificuldade de encontrar vaga, pois a prioridade é de quem já está cursando nesse turno. Tentamos dialogar com o Secretário de Educação, mas todas as vezes que marcou de vir até a escola para conversar com os alunos ele não compareceu. Colhemos assinaturas num abaixo assinado, entregamos na Assembleia Legislativa. Não tocaram mais no assunto, mas o clima é de incerteza quanto ao futuro, se, de fato, vamos conseguir matrícula no ano que vem”, afirma Layla.

Até o momento, segundo levantamento realizado pelo deputado Majeski, o governo Hartung já teria fechado mais de 500 turmas em todo o Estado.

 

 

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