Manobra contábil de Pedro Guimarães busca enfraquecer a Caixa para privatização

A manobra contábil busca reduzir artificialmente o lucro da Caixa para enfraquecer e “baratear” ao banco diante dos processos de venda que vem sendo preparados pelo governo

O presidente da Caixa, Pedro Guimarães, está preparando uma provisão extraordinária de até 7 bilhões de reais para perdas esperadas com calotes no financiamento imobiliário e com a desvalorização de imóveis que foram retomados pelo banco.  A manobra foi divulgada pela agência Reuters nesta quarta-feira, 27, com base em denúncias de fontes internas do banco.

Se efetivada, a medida deve reduzir o lucro anual da Caixa para menos de 10 bilhões de reais. Até setembro de 2018, o lucro líquido do banco tinha sido de 11,5 bilhões e a as projeções internas apontavam para um lucro em torno de 16 bilhões até dezembro, segundo o site. Entre os maiores bancos públicos do país, a Caixa é o único que ainda não divulgou os resultados de 2018.

A manobra contábil busca reduzir artificialmente o lucro da Caixa para enfraquecer e “baratear” o banco diante dos processos de venda que vêm sendo preparados pelo governo, que incluem setores estratégicos como de seguro, gestão de ativos, loterias e cartões de crédito.

A decisão sobre a provisão, no entanto, tem encontrado oposição dentro da própria Caixa. Para diretores envolvidos no preparo das demonstrações contábeis, a ordem de Guimarães está sendo interpretada como uma desautorização às práticas adotadas até a virada do ano, que tinham aval de auditores independentes, do Banco Central e do Tribunal de Contas da União (TCU).

Guimarães tenta consolidar o plano de fatiamento da Caixa elaborado por Guedes e Bolsonaro, colocando em xeque a solidez do maior banco público do país, é o que alerta a diretora do Sindibancários/ES Lizandre Borges.

“A Caixa é uma empresa com 158 anos de história, com contribuição fundamental para o crescimento social e econômico do país. Hoje, tem papel de destaque na oferta do financiamento habitacional, além de ser o principal agente responsável pelo FGTS, PIS e pelo Seguro-Desemprego. São inúmeros programas de atendimento à população que passam pela gestão da Caixa. Seu desmonte como banco público representa a destruição de um patrimônio que afetará a vida de milhões de brasileiros, em especial os mais pobres, alijados das salas de atendimento do sistema financeiro privado”, diz a diretora.

A Federação Nacional dos Empregados da Caixa (Fenae) também contestou a manobra contábil e as consequências da política operada por Guedes. “A luta contra a decisão sobre a provisão extra deve ser assumida por toda a sociedade, sobretudo pelos empregados da Caixa. Em defesa do desenvolvimento nacional e do caráter público do banco, a partir do investimento em programas sociais, a Fenae contesta a proposta de enfraquecimento da Caixa e reafirma seu compromisso de alertar a sociedade para se contrapor a essa sangria do patrimônio público”, disse Jair Pedro Ferreira, presidente da Fenae.

A manobra

Segundo a Reuters, Guimarães deu ordem para adoção de uma abordagem contábil mais conservadora em relação a possíveis prejuízos da Caixa, que tinha uma carteira no setor imobiliário de 440 bilhões de reais em setembro.

“A ideia é incluir mais operações imobiliárias na classificação de risco de não pagamento pelo tomador, além dos imóveis que já foram tomados por não pagamento”, explica Rita Lima, diretora do Sindibancários/ES.

PLR pode ser afetada

Assim que a notícia foi divulgada, bancários e bancárias também manifestaram preocupação com o impacto que a manobra pode ter sobre o pagamento da segunda parcela da PLR, que deve ser creditada até 31 de março.

“O banco faz uma pressão adoecedora sobre os seus empregados para garantir as metas estabelecidas, tudo em nome do lucro, e por fim maquia os resultados prejudicando a própria instituição e os empregados. É algo simplesmente inadmissível”, destaca Lizandre.

A PLR como é paga na Caixa é uma das conquistas históricas das entidades representativas e foi adotada em 2010, como parte do processo de valorização da categoria por exercer tarefas relacionadas ao papel social do banco. Antes, o que existia era a chamada PRX, um plano atrelado ao cumprimento de metas, que deixava a maioria dos trabalhadores sem receber nada.

Com informações da Reuters e Fenae

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