Movimentos sociais fazem audiência com Hartung, mas saem sem garantias

Com mais de duas horas de atraso, a comissão formada por representantes de movimentos sociais do campo e da cidade conseguiu se reunir na tarde desta quarta-feira, 06, com o governador Paulo Hartung (PH) para discutir uma pauta unificada. A audiência, marcada para as 10 horas, começou pós meio-dia e durou pouco, capitaneada pela intransigência […]

Com mais de duas horas de atraso, a comissão formada por representantes de movimentos sociais do campo e da cidade conseguiu se reunir na tarde desta quarta-feira, 06, com o governador Paulo Hartung (PH) para discutir uma pauta unificada.

A audiência, marcada para as 10 horas, começou pós meio-dia e durou pouco, capitaneada pela intransigência do governador. “Hartung falou o que quis, ouviu apenas a quem quis, não se comprometeu com nada e se retirou da sala”, relata Fabrício Coelho, diretor do Sindibancários/ES e representante da Intersindical, que integrou a comissão. A reunião aconteceu sem a presença da imprensa, vetada pelo governador.

A espera de duas horas não foi a única dificuldade imposta pelo Executivo. O governo exigiu que a comissão dos trabalhadores, composta por 23 pessoas, fosse reduzida para oito, com veto explícito aos representantes dos sindicatos e organizações urbanas. Depois de muita resistência, foi montada comissão um pouco mais representativa, com 13 membros.

Banestes na pauta

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A manutenção do Banestes Público e estadual e o cumprimento do papel social do banco estavam na pauta. Mas assim como outros pontos, foi ignorado por Paulo Hartung.  Vale salientar que o sindicato dos Bancários/ES protocolou ofício em fevereiro para tratar do tema junto ao governador, bem como das condições de trabalho no banco e das novas contratações, mas não teve retorno.  

“A partir da Medida Provisória Medida Provisória 695/2015, q     eu autoriza BB e Caixa a adquirirem participação em instituições financeiras, o Banestes volta a ser ameaçado de privatização. Estamos rearticulando com outras organizações, inclusive com os movimentos do campo, o Comitê em Defesa do Banestes Público e Estadual. O papel social do banco, com linhas de crédito específicas para a agricultura camponesa, também são reivindicados. Tudo isso passa pelo fortalecimento do Banestes. Por isso compomos a Comissão de negociação junto com os demais movimentos”, diz Jessé Alvarenga, coordenador geral do Sindicato dos Bancários/ES.

A pauta dos movimentos contemplava reivindicações para o desenvolvimento econômico e ambiental do Estado, a política de reparo dos prejuízos da crise hídrica, a obtenção de terras para fins de reforma agrária, a educação do campo, a garantia da vida e dos direitos humanos, direitos trabalhistas e serviços públicos de qualidade. Paulo Hartung só aceitou ouvir as questões da agricultura e educação do campo, ainda assim, sem apontar propostas ou soluções por parte do poder público.

Na fala de Hartung, não faltaram “desculpas” para desresponsabilizar o governo diante das reivindicações. PH repetiu, como vem fazendo desde o início de seu mandato, o discurso de crise econômica, alegando que nenhum governo, na esfera federal, estadual ou municipal, tem recursos e que a pauta apresentada era inviável. Ele ainda criticou a radicalidade dos movimentos sociais presentes e tratou de despachar rapidamente a negociação para o secretariado.

A postura do governador revela, além de pouco traquejo político, falta de disposição em dialogar com as organizações sociais que atuam no Espírito Santo – postura bem diferente da manifestada pelo governo quando os agentes em cena se tratam de representantes de setores empresariais ou do agronegócio.

“Sentimos uma extrema antipatia com os movimentos sociais. Pareceria que estávamos falando com um gestor, e não com um governador de estado, em tese eleito para representar a todos. Não houve debate de política sobre as questões apresentadas e o governo foi taxativo ao dizer que não ouviria nenhum dos representantes da cidade”, destaca o diretor do Sindicato, Fabrício Coelho.

Após a saída de Hartung, ficou a cargo de Júlio Pompeu, coordenador de Direitos Humanos – cotado para assumir a Secretaria Estadual de Direitos Humanos – a continuidade da negociação com os movimentos urbanos. Uma reunião ficou agendada para a próxima quarta-feira, 13, às 14 horas com Pompeu. Também estavam presentes à audiência Paulo Roberto Ferreira, secretário da Casa Civil, e Octaciano Neto, da Secretaria de Estado da Agricultura, Abastecimento, Aquicultura e Pesca.

Reunião é resultado da luta

 “Foi importante que o espaço tenha acontecido. Não podemos ter um governo que simplesmente se recusa a sentar com as organizações do povo. Nesse sentido, foi uma conquista, garantida a partir da pressão, da luta, e que abre caminho para novas articulações”, avalia Coelho, apesar de das negativas do governador.

“Mas é preciso mais do poder público. Ele tem que se posicionar diante das reivindicações apresentadas e garantir recursos. Não queremos regalias. Queremos direitos, políticas públicas que ampliem o acesso à educação no campo e na cidade, que possibilidade a expansão da produção e da distribuição de alimentos provenientes da agricultura camponesa, ações que recuperem o meio ambiente e que garantam a promoção dos direitos humanos e o fim da violência contra os pobres, negros e mulheres”, salienta Fabrício.

A audiência com o governador, inicialmente agendada para o dia 28 de março e adiada para esta quarta, foi garantida após uma série de ações de luta realizadas pelos movimentos da via Campesina com apoio dos movimentos urbanos, como a ocupação por 25 dias da Secretaria Estadual de Educação (Sedu) e a ocupação do Palácio Anchieta na marcha do Dia Internacional de Luta das Mulheres – 8 de março.

Antes da reunião, uma marcha com cerca de 500 pessoas saiu de Jucutuquara rumo ao Palácio Anchieta, e marcou o movimento intitulado “Jornada Por Dignidade dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Campo e da Cidade”. 

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