Ocupa Brasília: floresce a revolta popular em defesa dos direitos

Reprimida violentamente pelo Governo Temer, manifestação em Brasília demonstrou unificação da esquerda, fragilidade do presidente ilegítimo e força do movimento popular na luta contra as reformas e pelas eleições gerais diretas já

A repressão foi violenta, mas os manifestantes não recuaram

A cada bomba, mais um passo à frente. A cada tiro, um grito de resistência. Nem mesmo a força do Choque conseguiu dispersar a multidão que ocupava a Esplanada dos Ministérios na tarde desta quarta-feira, 24, em Brasília. Foram 150 mil pessoas segundo a organização do evento, mas aos olhos que viram uma multidão alcançar o horizonte de Brasília, pareciam ser muito mais.

Curtos intervalos de tempo separavam as investidas da PM e, quando menos se esperava, novos estouros de bombas de efeito moral eram ouvidos. O vento se encarregava de alastrar o gás tóxico e seus efeitos por quilômetros. Mas a beleza da força popular reside justamente na capacidade que tem de resistir a seus exploradores. De repente, no meio da cegueira coletiva provocada pelo gás, crescia como onda o grito “fora Temer”. Era um turbilhão de gente em movimento que fazia tremer o gramado e arrepiar o corpo. Não houve quem, testemunhando a covardia com a qual era comandada a ação da polícia, não gritasse com entusiasmo. Os que não conseguiam andar sufocados eram ajudados, em demonstrações de solidariedade que ignoravam idade, organização política ou local de origem. Ali eram todos camaradas, no sentido próprio do termo – aqueles que dividem o ar.

Mas o forte esquema de segurança impediu que os manifestantes se aproximassem do Congresso Nacional, ironicamente conhecido como a casa do povo. O uso excessivo do aparato policial chegou ao ápice com o decreto assinado por Temer que permitia a atuação da Forças Armadas em Brasília para reforçar a segurança patrimonial. Na visão governamental, diferente dos prédios públicos, as pessoas que ali estavam não precisavam ser protegidas, mas combatidas. Ao todo, foram 49 feridos e 8 presos, segundo dados divulgados pela imprensa nacional. Três militantes capixabas foram detidos em ação truculenta da polícia e liberados ao final do dia.

Retomar a democracia pelo voto popular

O povo foi às ruas pedir “Fora Temer!”. O grupo do qual o Sindibancários faz parte também defende as eleições gerais diretas já

Acima do conflito entre policiais e manifestantes resta a mensagem passada ao presidente golpista e às elites desse país: a farra com a democracia precisa acabar. Se não pela vontade dos representantes públicos, pela pressão do povo nas ruas – e o Ocupa Brasília, como foi chamada a manifestação desta quarta, deixou clara a disposição e a capacidade de luta das bases organizadas de trabalhadores e trabalhadoras brasileiros.

O combate às reformas unificou uma esquerda até então fragmentada pelos governos petistas. A luta concreta pela defesa dos direitos se sobrepôs às posições partidárias e os movimentos que passaram anos pacificados acreditando em um projeto de conciliação finalmente voltaram às ruas.

Enquanto isso, a bandeira das diretas já cresce até mesmo entre os que defenderam o impeachment de Dilma e o laço de alianças de Temer vai se desfazendo, fica frágil, frouxo. PSB e PPS já retiraram seu apoio ao governo. Ao todo, são 17 pedidos de impeachment protocolados contra Michel Temer (PMDB), o mais recente pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), que figurou com destaque, para o bem e para o mal, no processo de impedimento de Dilma.

Entre os que defendem as diretas já, há ainda um grupo, do qual faz parte o Sindibancários/ES, que vai além. Afirma que as eleições diretas são necessárias, mas insuficientes. Da mesma forma que não pode governar o presidente Temer, não podem continuar legislando os deputados e senadores que compõem o parlamento brasileiro se não forem, a luz dessa nova conjuntura, respaldados pelo voto, por isso, defendem eleições gerais imediatas no âmbito federal. A bandeira, embora mais complexa que as diretas presidenciais, tem uma base concreta de sustentação: são mais de 200 parlamentares investigados por corrupção, a metade deles só na operação Lava Jato. Esse mesmo dado explica por que uma possível eleição indireta seria a concretização de um golpe dentro do golpe: aqueles que se beneficiaram do mesmo esquema de corrupção de Temer se tornariam os responsáveis por substituí-lo. Coisa boa não pode sair, como dizem no popular.

Barrar as reformas recessivas

Os trabalhadores e trabalhadoras deixam claro que não querem nenhum direito a menos

Nesse meio, a pequena oposição parlamentar liderada por Psol e Rede, guardadas as diferenças entre os dois partidos, se agiganta. Em parte pela visibilidade que jamais teve, mas principalmente pela atuação aguerrida e ética. Temer, já considerado um defunto político, tenta ganhar tempo, sobreviver. A renúncia soaria como assunção de culpa, por isso a relutância em sair do cargo. Mas o desafio da classe trabalhadora é maior que a queda do presidente. É preciso garantir a participação democrática do povo na escolha de seus representantes e afastar as ameaças das reformas que pretendem desmontar qualquer instrumento de proteção ao trabalho já construído no país.

“A reforma trabalhista seria a maior derrota para os trabalhadores nos últimos 100 anos. É a precarização geral das relações de trabalho, com prejuízo imensurável para o lado mais fraco dessa relação”, diz Jonas Freire, coordenador geral do Sindibancários/ES.

A reforma trabalhista somada à reforma da Previdência e à lei de ajuste fiscal que proíbe o aumento dos gastos públicos nos próximos 20 anos trarão consequências para o futuro que passam necessariamente pelo empobrecimento da população e pelo aumento do desemprego e do trabalho informal, com o sucateamento das estruturas públicas de saúde, educação e assistência que estarão extremamente enfraquecidas para atender ao crescimento da demanda social. Daí a urgência de, além de suplantar o governo golpista, barrar as reformas em curso, patrocinadas pelas elites ligadas ao capital empresarial, financeiro e agrário. A luta continua até Temer e as reformas caírem.

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