Pé na Estrada Regência: vivência ecológica e solidária

Projeto envolveu bancários e moradores de Regência em ações sociais, ambientais e culturais no último sábado e domingo

A enchente do Rio Doce, evento cíclico que ocorre entre dezembro e janeiro, é sinônimo de fertilidade nas áreas ribeirinhas de Regência, mas foi sinal de tristeza em 2016. “Quando vem a enchente é bom porque a terra fica ainda mais fértil, mas por causa dessa lama, tem sete meses que a gente não produz nada”, revela seu Nilton, pescador e agricultor local, fazendo referência aos impactos da lama tóxica que atingiu regência após o rompimento da barragem de fundão (MG), que escoou pelo Rio Doce 50 milhões de metros cúbicos de rejeitos de atividade mineradora.

A história de Seu Nilton é semelhante à de outros moradores com quem bancários e bancárias puderam trocar experiência no último sábado e domingo (11 e 12) durante  a edição do Projeto Pé Na Estrada. Foram dois dias de atividades sócio-ambientais e culturais na Vila de Regência, realizadas pelo Sindicato dos Bancários/ES em parceria com o movimento Regência Viva, que propõe uma “ativação” permanente na cidade através de vivências culturais e ecológicas, do resgate das tradições nativas e da prática do turismo sustentável.

Pe-na-estrada-regência-sindicato copiar

Grupo que participou do Pé Na Estrada, na beira do Rio Doce (Fotos Sérgio Cardoso)

Sem poder pescar e sem fonte limpa de captação de água para o cultivo, seu Nilton, morador de Regência há mais trinta anos e pai três filhos, teve as duas fontes de renda  ̶ agricultura e pescaria ̶ substituídas pelo cartão de auxílio da Samarco, que cobre apenas um terço da renda familiar que tinha com o trabalho autônomo.  Hoje, com o clareamento parcial da água do rio, ele tenta aos poucos retomar a produção agrícola na pequena porção de terra que possui, ainda receoso sobre os níveis tóxicos da água.

pe-na-estrada-regência-sindicato-12 copiar

Seu Nilton, à esquerda, conversando com os participantes do Pé na Estrada (Fotos Sérgio Cardoso)

A preocupação de Seu Nilton é pertinente. “O fato da presença de metais ser menor nas amostras não significa que eles estejam em baixa concentração. Dos 18 metais que foram analisados, por exemplo, supõe-se que o ferro e o alumínio estejam no fundo do rio. Com o passar do tempo a água vai clareando, mas esses metais vão se sedimentando e podem ser ressuspensos por vários fatores, tornando-se novamente fonte de contaminação”, explica Gabriel Riva, membro do Fórum Capixaba em Defesa do Rio Doce.

Uma reunião com o Fórum e com moradores locais fez parte da programação do Pé Na Estrada na tarde de sábado (11), onde foi possível aprofundar o debate sobre o crime ambiental e humano cometido pela Samarco, Vale e BHP Billiton. Ainda sobre os riscos de contaminação, Gabriel complementa: “Esses metais não são depurados por nenhum ser vivo, eles são acumulados. Por isso, a contaminação deve ser pensada a médio e longo prazo, compreendendo um processo de acumulação. Levando em conta uma cadeia alimentar, por exemplo, os camarões que vivem lá no fundo são mais diretamente atingidos, depois os peixes e, por consequência, nós. O ser humano então vai cumular todos esses níveis de contaminação, mesmo que, nas análises da água, a concentração de metais apareça menor. É um processo de bioacumulação”.

pe-na-estrada-regência-sindicato-18 copiar

Para os moradores, a Samarco tenta mostrar que tudo já voltou à normalidade, mas sete meses depois da tragédia, a realidade local ainda é cheia de problemas, insegurança e falta de assistência. “A nossa água está esculhambada, enferrujada, esquisita. Todos nós estamos comprando água para beber. A Samarco veio aqui, fez uma maquiagem e foi embora. A gente não sabe o que fazer”, diz Dona Rosa, emocionada ao compartilhar sua história e as dificuldades que vem enfrentando.

“O problema da água é gritante. Água é um direito universal básico, portanto, é inaceitável que as pessoas não tenham água para lavar roupa, limpar a casa, para beber. É um problema sobre o qual precisamos nos debruçar, porque em breve será uma realidade vivenciada em todas as regiões. A água não pode se tornar uma mercadoria disponível apenas aos que podem pagar por ela”, diz Lucimar Barbosa, diretora de Cultura do Sindicato.

“Quando a lama chegou, várias organizações que trabalham com o meio ambiente vieram aqui, inclusive a ministra do meio ambiente [à época, Izabella Teixeira], mas nenhuma deu respostas à comunidade.  Prometeram que iriam articular informações, e nada. Eles não querem ter relação com a comunidade”, relata Diego Roldão, jovem que constrói o Regência Viva. “A Samarco maquiou tudo, mas a população está largada, abandonada. Não temos nenhum apoio da empresa e do governo”, diz indignada Thalena Pereira, jovem nativa da Vila, também envolvida em movimentos de resistência.

pe-na-estrada-regência-sindicato-5 copiar

Durante a atividade foi realizado um passeio de barco pelo Rio Doce

O Fórum Capixaba em Defesa do Rio Doce foi criado logo após o desastre, reunindo cerca de 80 entidades da sociedade civil para discutir ações em torno do tema. Em articulação com a população das cidades de Baixo Guandú, Colatina e Regência, tentam formar comitês locais para dar voz às comunidades ribeirinhas e cobrar ações mais efetivas do poder público, tanto relacionadas à assistência e à garantia de direitos dos atingidos, quanto à punição dos responsáveis.

“Quando a gente olha para a TV, para o jornal, a gente não vê esse assunto sendo tratado como deveria, ou seja, como o maior desastre sócio-ambiental da história do país. Estamos falando de  19 pessoas mortas e  300 famílias desabrigadas. Foram 50 milhões de metros cúbicos de lama de rejeito derramados em 663 quilômetros de rio e no mar, atingindo três unidades de conservação marinha. Ou seja, é um desastre de proporções colossais. E só no Brasil existem cerca de 600 barragens de rejeitos semelhantes às que romperam em Mariana e em São Bento”, denuncia Gabriel.

A luta de um povo contra o poder econômico e político

Gabriel Riva salienta o desafio de construir uma luta que se opõe a interesses de grandes corporações econômicas e com grande influência nas instituições políticas brasileiras. Para ele, o caminho está na organização popular e na ação unitária e coletiva. “Estamos diante da maior mineradora do mundo, a BHP Billiton, da Vale, que está entre as 10 maiores mineradoras do mundo, e da Samarco, que também é uma gigante. Além disso, temos o governo federal e os governos estaduais de Minas e Espírito Santo. Esse grupo de empresas rés e nossos ditos representantes públicos fizeram um ‘acordão’ onde trataram da negociação de nossos direitos, a negociação do direito à saúde e à vida. A sociedade não está diante de um adversário qualquer, por isso nossa ação jamais pode ser solitária, deve ser sempre coletiva. A gente não pode pensar como indivíduo, tem que pensar como coletividade. Se não for assim não vamos ganhar de multinacional e dos outros poderes envolvidos”, conclui, convidando os presentes para audiência pública estadual, que será realizada no próximo dia 29, na Assembleia Legislativa, para debater o acidente.

Trilha e manejo sustentável

pe-na-estrada-regência-sindicato-9 copiar

Marca nas árvores mostra até onde chegou a água no Rio Doce durante enchente, dessa vez com a lama de rejeitos

Depois de fazer um passeio de catraia pelo Rio Doce, os participantes do Pé Na estrada percorreram uma trilha pela mata ciliar, onde puderam se conectar com a natureza e conhecer a proposta local de plantio consorciado de algumas árvores frutíferas, como cacau e jenipapo. Nos troncos das árvores, era possível ver a marca da lama resultante da inundação.  Eric Freitas, do movimento Regência Viva, foi o guia da expedição e falou sobre a preservação do meio ambiente e o trabalho do grupo na construção de tecnologias sustentáveis, como a técnica de “bambu a pique”, aplicada em bioconstruções que utilizam bambu e barro.

“A técnica de bambu a-pique consiste em ‘guardar’ o bambu dentro da parede de barro. Fizemos por muito tempo o manejo deste bambuzal para utilizá-lo no desenvolvimento de projetos de arquitetura sustentável. O trabalho todo foi em conjunto com a comunidade, fazendo mutirões voluntários”, disse, em frente a um bambuzal com mais de 50 anos, do qual saiu parte da matéria prima para construção de uma casa suspensa visitada pelos participantes do Pé Na Estrada. “Aqui resgatamos também a proposta das palafitas, de construir a casa em suspensão por causa das inundações naturais da região ribeirinha, algo que existia anos atrás, mas que foi se perdendo”, explica.

pe-na-estrada-regência-sindicato-13 copiar

Solidariedade

A diretora de base do Sindicato, Kerley Herculano, de Linhares, falou sobre a necessidade de se solidarizar com a luta da população de regência. “Como categoria bancária e como classe trabalhadora, temos a preocupação de estar engajados nesse movimento em defesa do Rio Doce e pelos direitos dos afetados. Fomos todos, direta ou indiretamente, impactados por essa tragédia, portanto essa é uma luta nossa também. Por isso viemos trazer nossa solidariedade e força à essa comunidade”.

Solidariedade também foi a palavra que motivou a “Feira do Desapego”, onde os participantes do Pé Na Estrada disponibilizaram peças de roupas para doação. Ainda foi organizada uma campanha de doação de alimentos que contemplou sete famílias da Vila.

Biodiversidade e vida

No domingo pela manhã, um mutirão foi montado para fazer o plantio de mudas numa ação de reflorestamento realizada em parceria com o Fórum de Desenvolvimento Econômico, Social e Ambiental do Vale Encantado (Desea), que atua em Vila Velha com trabalhos de educação e preservação ambiental. Foram 56 mudas doadas para Regência, com variedades que incluem aroeira, pitanga, caju e feijão da praia. Integrantes do Desea, que também praticam observação de aves, aproveitaram para fazer o registro fotográfico dos pássaros da região e se encantaram com a diversidade de espécies. Em menos de dois dias de observação, foram identificadas cerca de 80, algumas delas raras. Até um lindo gavião posou para foto. De tão tranquilo, parecia se exibir aos visitantes.

pe-na-estrada-regência-sindicato-28

pe-na-estrada-regência-sindicato-14 copiar

 

Cultura popular

O Pé Na Estrada também teve teatro e música. A Companhia de Artes Regência Augusta, composta por moradores e moradoras da comunidade, apresentou no Centro Ecológico da Vila o Auto do Caboclo Bernardo, peça que remonta a história desse importante herói negro, indígena e popular. Caboclo Bernardo, índio nativo, foi o responsável pelo salvamento de 128 vítimas de um navio que encalhou na costa da Vila, e hoje é lembrado pela população de Regência como símbolo de coragem e solidariedade. Em seguida, a sonoridade do Congo encheu o ambiente da praça central, com um ritmo que busca na ancestralidade os elementos para as lutas de hoje. Houve também duas exposições de fotos dos bancários Deraldo pereira e Débora Gusmão que retrataram o dia da chegada da lama no município e a tradicional festa de Caboclo Bernardo.

pe-na-estrada-regência-sindicato-15 copiar

“A vivência na cidade nos mostrou muito além do desastre, nos mostrou mais uma vez que é possível, através da ação coletiva, se reinventar. Estão surgindo em Regência novas formas de resistência e organização que, mesmo diante dos problemas, dão vida à comunidade, pensando numa perspectiva humanitária e sustentável. E a proposta do projeto Pé Na Estrada é justamente conhecer o Espírito Santo através dessas experiências de resistência cultural, que também nos enriquecem”, diz Lucimar Barbosa, para quem as ações de solidariedade e de troca com a comunidade foram recíprocas.

pe-na-estrada-regência-sindicato-22 copiar

Veja mais fotos do Pé Na Estrada no FlickR do Sindicato.

Imprima
Imprimir