Por mais Augusto Ruschi e menos Sebastião Salgado

É comemorado neste mês de dezembro o centenário de nascimento do cientista Augusto Ruschi, capixaba, ambientalista, naturalista, nascido no município de Santa Tereza e uma das maiores referências mundiais em estudos ornitológicos de beija-flores e da ecologia da Mata Atlântica. A celebração de sua memória e da dimensão política e ecológica de sua concepção ambientalista […]

É comemorado neste mês de dezembro o centenário de nascimento do cientista Augusto Ruschi, capixaba, ambientalista, naturalista, nascido no município de Santa Tereza e uma das maiores referências mundiais em estudos ornitológicos de beija-flores e da ecologia da Mata Atlântica. A celebração de sua memória e da dimensão política e ecológica de sua concepção ambientalista de mundo torna-se primordial nestes tempos de tragédia socioambiental, como a da Samarco no Rio Doce e de crises sofisticamente pré-fabricadas. Além, é claro, de demarcação do tipo de convicção ética que deve ser aplicado à luta socioambiental na dimensão do debate político acerca da relação sociedade-natureza.

Nestes tempos de acirrado debate socioambiental sobre a forma como a sociedade se projeta sobre os espaços herdados da natureza, a recuperação do legado de Augusto Ruschi traz consigo a recapitulação da ética necessária como critério de demarcação dos limites que devem ser aceitáveis no campo da luta socioambiental; onde nem tudo é permitido, nem tudo deve ser aceitável e nem tudo é recomendável.

Ao mesmo tempo, tem aflorado, neste debate, condutas e posturas políticas que ensejam exatamente outra dimensão da ação política que evidencia a forte relativização de uma ética que consagra e valida as ações indiscriminadas sobre a natureza. Refiro-me a ausência, no discurso e conduta de Sebastião Salgado, da demarcação e identificação dos atores responsáveis pela degradação dos recursos naturais que seu “ambientalismo” almeja recuperar, bem como uma postura mais crítica com relação a eles.

O ambientalismo de Augusto Ruschi é absolutamente diferente do praticado pelo fotógrafo Sebastião Salgado, que, embora tenha um importante legado de iniciativa socioambiental em favor da proteção da natureza, o faz por métodos e instrumentos que refletem o forte relativismo presente neste ambientalismo contemporâneo. Ou seja, o de se ver refém de mecanismos pseudo institucionais (compensações ambientais, doações e convênios) relacionados a atores (empresas) que são os verdadeiros responsáveis pela manutenção da racionalidade capitalista empresarial que não enxerga nada além do lucro oriundo da exploração dos recursos naturais.

Embora Augusto Ruschi seja muito conhecido pelo seu legado ambiental, pelas suas pesquisas ornitológicas e ecológicas é pouco conhecido por suas posições políticas e postura crítica. O pouco que conheço desse cientista foi por meio do estudo de seus textos e artigos científicos publicados no Boletim do Museu de Biologia Prof. “Mello Leitão”. É impressionante! Lá, é possível encontrar um acervo que demonstra não somente o eminente cientista da ecologia, ornitologia e climatologia ecológica, mas o ser político, o homem de personalidade forte que defendia a proteção à natureza a partir de uma concepção ética de denúncia e protesto diante da relação promíscua que se estabelecia entre Estado e grupos empresariais retrógrados que se instalavam no Espírito Santo, nos idos dos anos 1950.

Ruschi denunciou, também, o descaso com os grupos indígenas por parte do governo do Estado e Federal; enfrentou a política florestal arcaica do governador Elcio Álvares (presente e praticada até hoje em órgãos do Estado) em pleno período ditatorial militar; denunciou a tragédia socioambiental que seria a instalação do complexo siderúrgico da Vale na ponta de Tubarão, próximo a uma metrópole em processo de expansão como Vitória; a invasão exótica da monocultura de eucalipto pela Aracruz Celulose (Fibria) e os agrônomos que a defendiam e clamou ao mundo a necessidade de criar espaços naturais mínimos de preservação da biota nativa, como reservas de florestas, culminando na criação da Reserva Biológica Augusto Ruschi, em Santa Tereza. Ah, se ele estivesse vivo!! Com certeza, seria uma voz de forte resistência ao projeto empresarial desenvolvimentista de Paulo Hartung e usaria os fóruns internacionais para denunciar o que acontece na política ambiental do Espírito Santo e na tragédia previamente anunciada da Samarco no Rio Doce.

De Sebastião Salgado, além das suas exposições e livros publicados, conheço a sua principal iniciativa socioambiental, o Instituto Terra. Foi lá que fiz o meu primeiro trabalho de geomorfologia, quando o instituto estava começando, na antiga Fazenda Bulcão. O título do trabalho era “Impactos geomorfológicos da ocupação humana no município de Aimorés – uma análise por fotos” e foi publicado nos Anais do III Encontro Estadual de Geografia de Colatina, em 2001, organizado pela Associação dos Geógrafos Brasileiros, seção Espírito Santo. Na época, e neste encontro, questionávamos sobre a legitimidade e a ética de projetos ambientais financiados ou patrocinados por empresas como a Vale e Samarco, e convidamos os membros do Instituto Terra para debater o tema com os pesquisadores da geografia. Ninguém compareceu e, desde então, o que se viu foi a efetivação de uma entidade com patrocínios e convênios (como se observa nos demonstrativos financeiros publicados no site do instituto) firmados com empresas que são hoje as principais responsáveis pela degradação ambiental que o próprio instituto, por meio de seus projetos, procurar recuperar, tais como Vale e Samarco. Sebastião Salgado não tem formação técnica na área de ciências da natureza, mas é economista. Sabe como é a organização econômica de um aparato industrial como o da Vale, Samarco, Fibria, etc., tendo clara noção do quanto a forma de produzir dessas empresas poluidoras responde pela degradação dos recursos naturais, sem falar das mazelas sociais, como baixo índice de emprego gerado, concentração da renda e financiamento privado de grupos políticos.

Ruschi não se furtava em identificar os atores responsáveis pela degradação dos recursos naturais. Em sua ética e visão política ambiental a ecologia não era uma questão de caridade e de ajuda humanitária. Era uma questão de justiça ambiental e de ação política. Difícil acreditar em Ruschi fazendo convênios com empresas e/ou se reunindo com governadores para tratar de seus projetos ambientais. Assim como seria muito difícil imaginar Sebastião Salgado denunciando publicamente as ações da Samarco e da Vale. Imagina!? Sebastião Salgado protestando contra os projetos desenvolvimentistas de grupos empresariais que financiam a política de Paulo Hartung!? Protestando nos fóruns internacionais sobre a poluição atmosférica da Vale na Grande Vitória e os rejeitos da Samarco no Rio Doce!? Seria um grande ganho para a sociedade.

As concepções de luta ambiental presentes em Sebastião Salgado e Augusto Ruschi são distintamente diferentes e refletem o quanto essa dimensão política da nossa realidade mudou nos últimos anos, visto que ambos, embora tenham pontos comuns de convergência, divergem totalmente no método e postura. Acredito que na esfera da atuação política, tanto ambiental, quanto social, econômica e cultural, devemos sempre distanciar das condutas que degeneram em posições dissimuladas da realidade concreta dos fatos, resultado da distância que separa a nossa consciência do problema das ações necessárias para sua solução; o que resulta sempre em hipocrisia. Neste sentido, sou bastante sincero, por mais Augusto Ruschi e menos Sebastião Salgado.

Por Roberto José Hezer Vervolet.

O geógrafo, geomorfólogo e doutor em Geografia Física pela Universidade de São Paulo (USP), Roberto José Hezer Vervloet, escreve para o site do Sindicato dos Bancários/ES sobre as diferenças entre as ações ambientais do cientista Augusto Ruschi e as do fotógrafo e economista Sebastião Salgado. Ele destaca, por exemplo, que o cientista tinha uma postura crítica em relação aos grandes empreendimentos que se instalaram no Espírito Santo, como a Fibria. Já Sebastião Salgado promove ações ambientais por meio de parcerias com grandes empresas que têm em seu histórico desastres ambientais, como a Vale, calando-se diante dessa situação.

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