“Querem matar o futuro dos trabalhadores”

Marcelo Badaró Mattos, professor de História do Brasil da Universidade Federal Fluminense, pesquisador de história do trabalho e autor do livro “A classe trabalhadora: de Marx ao nosso tempo”, falou ao Correio Bancário sobre as novas configurações do mundo do trabalho e as ameaças aos direitos dos trabalhadores.

Correio Bancário (CB)- Quais mudanças vêm ocorrendo no mundo do trabalho?

Tanto no plano internacional, quanto no Brasil, vivemos uma expansão da classe trabalhadora. No início do século XXI, em 2000, tinha mais ou menos 2,6 bilhões de trabalhadores. Em 2016, já eram mais de 3,2 bilhões. Essa força de trabalho global não para de crescer. Mas, ao mesmo tempo, essa força de trabalho não encontra  emprego em quantidade suficiente para seu ritmo de expansão, e o que encontra nem sempre é o emprego formal, com contrato padrão de trabalho.

De acordo com a OIT, no máximo 45% da força de trabalho têm emprego formal. Quase 60% da força de trabalho estão em empregos temporários, informais ou precários. No Brasil, temos uma taxa histórica de informalidade entre 40% e 50%. Mas a marca do trabalho no mundo é a precariedade. De acordo com os dados brasileiros mais recentes, há quase 40 milhões de trabalhadores na informalidade. O melhor indicativo disso é que hoje o maior empregador no Brasil não é um único empregador, são os aplicativos.

CB- Isso seria a “uberização” do trabalho…

Isso tem sido chamado de “uberização” do trabalho, porque, talvez, a Uber seja a primeira e maior dessas empresas que se relaciona com pessoas através de um aplicativo que ganham um percentual do trabalho que executam, sendo o outro percentual apropriado pela empresa dona do aplicativo. No Brasil, já se estima que hoje 14 milhões de pessoas trabalham para a Uber, o Ifood e tantas outras desse tipo. A reforma trabalhista prometia gerar mais emprego e o que vemos é aumento do trabalho informal.

CB- A quem interessa a reforma trabalhista e, agora, a da Previdência?

Com a proposta da reforma da Previdência o que está colocado para a classe trabalhadora é ainda pior, porque se eles já estão matando o presente, querem agora matar o futuro dos trabalhadores. Essas reformas interessam sem dúvida nenhuma ao capital. Vivemos uma crise econômica que no Brasil teve uma cronologia um pouco distinta da internacional.

Depois da crise de 2008, a manutenção do comércio internacional, especialmente com a China, de commodities, das mercadorias vindas do agronegócio, da extração mineral, manteve a economia brasileira por mais alguns anos. Mas principalmente de 2014 para cá, vivemos uma crise significativa, e a saída que o capital, especialmente em uma periferia capitalista como é o Brasil, encontra para a crise é sempre jogar a conta sobre a classe trabalhadora. A linha geral é retirar direitos para diminuir os custos da força de trabalho. Foi isso que aconteceu no Brasil sob o governo ilegítimo de Michel Temer com a justificativa de que diminuindo os custos indiretos, se geraria mais emprego.

Mas tudo que vimos de lá para cá não só não gerou mais emprego, como o pouco que gerou foi emprego precário, informal. O fim de obrigações patronais tem um peso para a classe trabalhadora. Para aqueles que continuam empregados, os salários diminuíram nos últimos anos no Brasil, a jornada de trabalho só aumenta e, recentemente, a Organização Mundial de Saúde (OMS) reconheceu a síndrome de Bornout, que é a exaustão completa do trabalhador pelo excesso de trabalho. A Previdência Social é hoje absolutamente sustentável, mas vai ficando insustentável na medida em que diminui os postos de trabalho formais, porque cai a contribuição para a Previdência. Se essa reforma for aprovada pode acontecer uma diminuição ainda maior da contribuição patronal, e a consequência disso é a inviabilização do futuro das aposentadorias. Então a reforma que está colocada, na prática, não vai gerar mais empregos  e vai precarizar ainda mais as relações de trabalho e a vida dos trabalhadores no futuro.

CB- Nesta conjuntura quais são as perspectivas para a classe trabalhadora?

Seria muito otimismo dizer que temos no horizonte algum tipo de prognóstico positivo para a classe trabalhadora brasileira. Pelo contrário, estamos vivendo um cenário de ameaças muito sérias. A reforma da Previdência é uma delas. O governo que está aí ameaça direitos, ameaça liberdades democráticas, as condições de vida. As perspectivas para a classe trabalhadora vão depender de sua capacidade de organização e de luta. A resposta só pode vir da própria classe trabalhadora. Não dá para confiar em nenhuma saída institucional, por cima.

 

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