Caixa: reestruturação é aprofundada com novo PDVE e outras medidas

Novo plano de demissão voluntária pretende cortar mais de 5 mil empregados. A direção do Banco também anunciou medidas para reduzir despesas administrativas e operacionais que incluem extinção e centralização de unidades

O Governo Temer dá sequência ao demonste da Caixa com anúncio de um novo Programa de Desligamento Voluntário Extraordinário (PDVE), aberto para adesão na última segunda-feira, 17. O objetivo é eliminar cerca de 5,4 mil postos de trabalho, totalizando os 10 mil empregados que o PDVE anterior, finalizado em março, pretendia demitir, mas cuja adesão foi de 4.645 empregados, segundo a Comissão Executiva dos Empregados (CEE/Caixa).

Esse novo corte traz impactos para clientes e bancários, como explica a diretora do Sindicato Lizandre Borges. “Com menos bancários o atendimento fica mais demorado e vai sendo transferido para a rede de correspondentes, menos especializada e mais precária. Não por acaso a Caixa é campeã de reclamações junto ao Banco Central – reflexo direto da falta de empregados. Ao mesmo tempo, como essas vagas não são repostas, o quadro funcional fica sobrecarregado, as metas por empregado aumentam e o ritmo de trabalho adoece a categoria”.

Para a diretora, o lançamento do novo plano está alinhado às recentes mudanças na legislação trabalhista. “PDVE é sinônimo de demissão em massa. Na mesma semana em que se aprova uma reforma trabalhista que destrói direitos históricos, a Caixa lança esse novo plano para atingir a meta de desligar 10 mil empregados. O caminho será claramente o aumento da terceirização”, alerta.

Reestruturação

A direção da Caixa também apresentou ontem, 17, um conjunto de medidas que aprofundam a reestruturação do banco. Elas incluem automação de pelo menos 43 processos e centralização de atividades das áreas meio, com redução de 424 unidades para 293.  A redução será acompanhada de um duro corte de funções e da realocação de empregados.

As mudanças apontam para um reposicionamento da Caixa no mercado, de modo que a prioridade, que antes era a gestão de políticas públicas e o atendimento da população de baixa renda, se volta para a captação de negócios, aproximando a Caixa da estratégia dos bancos comerciais.

“Há uma descaracterização do papel social da Caixa, um banco que antes era referência no atendimento da população de baixa renda limita o acesso desse público, ‘liberando’ os funcionários para a venda de produtos, que é agora prioridade”, afirma Lizandre.

Verticalização

As medidas reforçam o processo de verticalização iniciado em janeiro deste ano, por meio do qual o banco começou a fazer um redimensionamento do número de empregados por agência a partir da produtividade em vendas. Ou seja, as agências que vendem pouco estão perdendo bancários. Assim, muitos empregados que hoje prestam atendimento social serão direcionados para a prospecção de clientes de alta renda e para a venda de produtos, repetindo a estratégia das instituições privadas.

Outra grave medida da verticalização é a segmentação da clientela por renda e por número de produtos junto ao banco. Os clientes que não derem para a Caixa o retorno financeiro esperado, conforme cálculo que considera renda e valor de aplicação, não serão “encarteirados”, ou seja, não farão parte da carteira de clientes da agência e não terão um gerente de conta, ficando obrigados a buscar outros canais, como correspondentes bancários, lotéricas e canais digitais.

Privatização

Para o Sindibancários/ES, as mudanças reforçam a ameaça de privatização a partir da adequação da Caixa à lógica de mercado. “Não temos dúvida de que está em curso um projeto de privatização, mesmo que não expressamente. As políticas públicas que a Caixa executa estão sendo esvaziadas, restando um banco puramente comercial. A tradição da Caixa na área de área de habitação, saneamento, nos programas de distribuição de renda, está se perdendo. O banco vem sendo fatiado de forma silenciosa por meio da venda da loteria, cartões de crédito e da seguradora, e ainda há a tentativa de tirar do banco a gestão do FGTS”, aponta Lizandre.

O impacto do esvaziamento do banco em relação às políticas públicas é grande. Só em 2015, a Caixa foi responsável por mais de 75% do crédito imobiliário destinado à população, direcionando mais de R$ 370 bilhões para essa finalidade. Para efeito de comparação, no mesmo ano Itaú, Santander, Bradesco e HSBC responderam, juntos, por R$ 86 bilhões.

Reestruturação atinge carreira de bancários

Os empregados que pensam em fazer carreira no banco também terão seus planos comprometidos, uma vez que a reestruturação altera o plano de carreira. Com os desligamentos, muitas funções serão extintas, o que restringe as perspectivas de evolução na carreira profissional.

“A Caixa está redistribuindo os trabalhos e passando tarefas que antes eram feitas por empregados comissionados, que tinham uma formação específica, para um empregado que não tem a mesma formação e nem recebe para isso. Ou seja, o bancário terá que absorver novas tarefas sem receber a comissão correspondentes”, salienta a diretora do Sindicato.

Outro problema será a realocação dos empregados, como consequência da extinção e centralização de unidades. A Caixa já abriu um banco de intenção de movimentação, mas com a revisão do plano funcional, não haverá vagas suficientes para que os empregados façam a migração mantendo suas comissões. “A exemplo do que aconteceu na reestruturação do Banco do Brasil, a tendência é que muitos empregados voltem a ser técnicos bancários, com perda significativa da renda, ou tenham que se mudar para um local muito distante para manter seu cargo e a remuneração”.

Entre os empregados aptos a aderirem ao PDVE, estima-se que 80% seja comissionado. Com o desligamento desses empregados, a maior parte dessas funções serão extintas. O prazo para aderir ao PVDE vai se 17 de julho a 14 de agosto, e os desligamentos serão efetivados entre 24 de julho e 25 de agosto.

Automação intensifica trabalho

O discurso de modernidade da Caixa se confronta com a piora das condições de trabalho, verificado também no adoecimento da categoria.

“Os empregados que estão nas centralizadas têm metas de análise individual de processos, então a intensidade com que eles trabalham é enorme. Há o adoecimento físico, causado pelo trabalho repetitivo no computador, e o adoecimento mental, causado pelo estresse, pela cobrança. A automação, nos moldes como é implementada, não colabora com o ambiente de trabalho, pelo contrário”.

Esse cenário deve se repetir com a implantação das agências digitais na Caixa, prevista para começar no Estado ainda em 2017.

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