Saque Saúde – Entrevista

Em entrevista ao Sindibancários, o bancário Wallace Muniz, do Banestes, fala sobre seu quadro de adoecimento e da importância das doenças ocupacionais serem tratadas em conjunto com as instituições, e não de forma individual

Wallace Muniz, bancário do Banestes há 34 anos, sofreu com doenças ocupacionais durante a carreira.

Com riso fácil e ar descontraído, o senhor Wallace Muniz, 61 anos, conta com entusiasmo que já atuou como diretor sindical de base por três mandatos e que desde o início de sua carreira no Banestes assumiu como compromisso a luta pela manutenção do banco público e estadual.

Com 34 anos de profissão, sua trajetória como bancário não é marcada apenas por lutas políticas. A expressão tranquila e o riso fácil dão lugar a um semblante reflexivo quando sua experiência de adoecimento, não tão distante no tempo, é relembrada. Em entrevista ao Sindibancários o trabalhador diz que contar sua história é uma forma de reforçar a importância do diagnóstico responsável nos casos de doenças ocupacionais e da necessidade das instituições assistirem seus funcionários adoecidos. Por isso, compartilhamos aqui no Saque Saúde a história do senhor Wallace. Confira:

Como os sintomas do seu adoecimento começaram a se manifestar?

Eu trabalho no banco há 34 anos e há dois eu tive problemas pessoais graves. Isso, somado aos problemas de trabalho, me levou a um surto esquizofrênico.

Você acredita que a rotina de trabalho da agência interferiu no seu quadro de adoecimento? De que maneira?

Sim, sem dúvida. Os surtos esquizofrênicos começaram há dois anos, mas há bastante tempo eu vinha tomando remédios por questões causadas pelo trabalho. Por 15 anos eu sofri de insônia, chegava a dormir apenas três ou quatro horas por dia. Eu já tive LER, reumatismo nas mãos e um problema no punho que me fez passar por setenta sessões de fisioterapia. Durante um período de três ou quatro meses eu ia para a agência e ficava sentado no almoxarifado, porque tinha dores pelo corpo inteiro, imunidade baixa…O banco cobra, e cobra muito. É o estresse do ambiente somado às pressões pelo batimento de metas.

Você vivenciou algum episódio de assédio por conta da doença?

Em 2013 eu tive problemas de estresse e fui liberado do trabalho. Dias depois eu recebi uma ligação dos recursos humanos do banco informando que eu estava sendo demitido. Não houve nem um processo administrativo. Foram me discriminando até que fui jogado numa situação de apatia, e aí fui demitido.  Noventa dias depois eu fui readmitido, mas foi um período muito desgastante. Eu fiquei louco. Eu tinha 56 anos e estava sendo demitido. ‘O que eu vou fazer da vida?’, eu pensei.

Como foi o processo de voltar para o trabalho pós-tratamento?

Depois do período de licença, que durou cerca de um ano, o INSS cortou eu retornei ao trabalho. Eu ainda estava sendo medicado. Tomava remédios para memória, para depressão… Era que nem remédio pra cavalo, eu nem me lembro quantos. Depois de todo esse quadro eu fui ainda acometido pela capsulite, uma inflamação no ombro conhecida como ombro congelado. O acolhimento dos colegas foi fundamental. Só tenho elogios pelo apoio que recebi de quem trabalhava comigo.

Os transtornos psicológicos são hoje os principais causadores de afastamento dentro da categoria bancária. O senhor acredita, pela vivência que teve, que o mercado de trabalho está preparado para lidar com essas questões de saúde?

Não, absolutamente. Eu fui para uma clínica psiquiátrica e o banco teve de me liberar para o tratamento, mas só quando eu estava numa situação muito extrema. Era como se eu tivesse quebrado todas as cordinhas, e depois que estoura, tem que enxugar e guardar o que sobrou. Eu cheguei num labirinto absurdo, um lugar perigosíssimo. No surto, você vai como um trem bala, quando percebe está sem freio. Você não sabe onde vai bater. Mar adentro você vai pro abismo. Uma coisa horrorosa. Qualquer trabalhador que tiver consciência de que vai surtar deve parar.

Bancários e bancárias, identifiquem os fatores de risco e busquem espaços de diálogo com os colegas para ações coordenadas em conjunto com o Sindicato dos Bancários para antecipar soluções de promoção de saúde.

Fique ligado na sua saúde e entre em contato conosco. :
saúde@bancarios-es.org.br
(27) 3331-9980

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