Senadores aprovam PEC 55 enquanto manifestantes são massacrados pela PM

A aprovação da PEC 55, que impõe cortes severos nos recursos públicos para saúde e educação, ocorreu em meio a protesto de trabalhadores e estudantes que foram violentamente reprimidos

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Foto: Sérgio Cardoso

Desrespeito, intransigência e violência foram as respostas dos senadores para os milhares de trabalhadores e estudantes que se manifestaram nesta terça-feira, 29, no Congresso Nacional contra a Proposta de Emenda à Constituição 55 (PEC 55). Enquanto os manifestantes eram massacrados pela polícia do lado de fora, o plenário do Senado aprovou por 61 votos a favor e apenas 14 contrários o congelamento dos investimentos públicos em saúde e educação pelos próximos 20 anos.

A PEC 55, que tramitou na Câmara dos Deputados com o nome de PEC 241, foi enviada ao Congresso pelo presidente Michel Temer no primeiro semestre. Se for aprovada ainda este ano, como pretende o governo, terá tramitado em tempo recorde no Congresso. Como se trata de uma mudança no texto constitucional, a aprovação no Senado precisa ter o apoio de três quintos dos senadores (49 de 81), nos dois turnos, para virar lei.

Agora, a proposta segue para análise em 2º turno e tem data provável de votação em 2° turno no dia 13 de dezembro. “Precisamos continuar lutando e não podemos deixar essa PEC avançar. Toda população brasileira será afetada pelas medidas de cortes previstas pela PEC, é um verdadeiro retrocesso”, enfatiza o coordenador geral do Sindibancários/ES, Jonas Freire.

Praça de guerra

Uma verdadeira praça de guerra foi o que se tornaram o gramado e as ruas em torno do Congresso. Cerca de 35 mil manifestantes, entre trabalhadores e estudantes de todo o país, ocuparam a Esplanada do Planalto horas antes da sessão começar. O Sindicato dos Bancários/ES enviou ônibus para Brasília com diretores, bancários de base e integrantes de movimentos sociais para fortalecer a mobilização.

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Diretores e diretoras do Sindibancários/ES, junto com estudantes capixabas, participaram do ato em Brasília (Foto: Sérgio Cardoso)

Pacificamente, os manifestantes caminharam até o Congresso, onde permaneceram segurando cartazes e faixas com frases contrárias à PEC. Mas logo a Polícia Militar cercou os manifestantes por todos os lados e deu início a uma ação violenta e truculenta, com uso de bombas de efeito moral, spray de pimenta, gás lacrimogêneo, força física e tiros de bala de borracha.

Os policiais conseguiram dispersar a manifestação e conduzir os manifestantes para longe do Congresso, mas o confronto continuou nas imediações do Museu Nacional da República e da Catedral Metropolitana de Brasília. Houve feridos e presos.

“Nossa manifestação estava pacífica e fomos surpreendidos pela atitude violenta da PM. Atiraram bombas e balas de borrachas para todas as direções, em cima das pessoas e sem nenhuma preocupação se estava ferindo alguém. Havia crianças no protesto. Toda essa repressão que sofremos demonstra a falta de respeito desse governo, dos deputados e senadores, que deveriam nos representar, com os trabalhadores e estudante”, relata Freire, com indignação.

Enquanto a PM atacava de forma covarde os manifestantes, dentro do Congresso, acontecia um coquetel para os senadores. Por volta das 17h15, quando se iniciou a ordem do dia no Plenário, a sessão teve de ser suspensa por alguns minutos devido a protestos verbais da presidente da Confederação das Mulheres no Brasil, Gláucia Morelli, contra a “entrega do país aos banqueiros”.

Senadores participavam de coquetel enquanto PM massacrava manifestantes

Senadores participavam de coquetel enquanto PM massacrava manifestantes

Após isso, vários senadores protestaram devido ao esvaziamento das galerias do Plenário do Senado e pediram ao presidente da Casa, Renan Calheiros, que permitisse a entrada de representantes sindicais e outros representantes da sociedade civil. Os estudantes foram impedidos. O Parlamento fechou as portas para a sociedade.

Pouco antes das 18h, o presidente do Senado chamou o item 1 da pauta, a PEC 55/2016, e o relator, Eunício Oliveira (PMDB-CE), apresentou seu relatório favorável à aprovação da proposta e contrário às emendas apresentadas. Ele rechaçou as acusações da oposição de que o teto de gastos vai diminuir os investimentos públicos nas áreas de saúde e educação e reforçou que programas como o Fundo de Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb) e o Programa de Financiamento Estudantil (Fies) não terão prejuízos.

Alterações rejeitadas

Foram rejeitados todos os destaques apresentados pela oposição e que foram votados separadamente. O primeiro, de autoria do senador Humberto Costa, retiraria do congelamento de gastos os recursos da saúde e da educação (55 votos contra 17). O segundo, também de autoria de Humberto Costa, pedia a realização de um referendo popular em 2017 para que os brasileiros pudessem decidir se concordam ou não o novo regime fiscal proposto pelo governo federal (51 votos contra 15). Por fim, o destaque da senadora Vanessa Grazziotin sugeria um limite de gastos também para o pagamento de juros e encargos da dívida pública da União (52 votos contra 16).

O que foi aprovado

De acordo com o texto aprovado, a partir de 2018 e pelos próximos 20 anos, os gastos federais só poderão aumentar de acordo com a inflação acumulada conforme o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).
O novo regime fiscal valerá para os orçamentos Fiscal e da Seguridade Social e para todos os órgãos e poderes da República. Dentro de um mesmo poder, haverá limites por órgão. Existirão, por exemplo, limites individualizados para tribunais, Conselho Nacional de Justiça, Senado, Câmara, Tribunal de Contas da União (TCU), Ministério Público da União, Conselho Nacional do Ministério Público e Defensoria Pública da União.

O órgão que desrespeitar seu teto ficará impedido de, no ano seguinte, dar aumento salarial, contratar pessoal, criar novas despesas ou conceder incentivos fiscais, no caso do Executivo. A partir do décimo ano, o presidente da República poderá rever o critério uma vez a cada mandato presidencial, enviando um projeto de lei complementar ao Congresso Nacional.

Regra Geral

A inflação a ser considerada para o cálculo dos gastos será a medida nos últimos 12 meses, até junho do ano anterior. Assim, em 2018, por exemplo, a inflação usada será a medida entre julho de 2016 e junho de 2017. Para o primeiro ano de vigência da PEC, que é 2017, o teto será definido com base na despesa primária paga em 2016 (incluídos os restos a pagar), com a correção de 7,2%, que é a inflação prevista para este ano.

Exceções

Algumas despesas não vão ficar sujeitas ao teto. É o caso das transferências de recursos da União para estados e municípios. Também escapam gastos para realização de eleições e verbas para o Fundeb.

Saúde e educação também terão tratamento um pouco diferenciado. Esses dois pontos vêm gerando embates entre governistas e oposição desde que a PEC foi anunciada pelo presidente Michel Temer. Para 2017, a saúde terá 15% da Receita Corrente Líquida, que é o somatório arrecadado pelo governo, deduzido das transferências obrigatórias previstas na Constituição.
A educação, por sua vez, ficará com 18% da arrecadação de impostos. A partir de 2018, as duas áreas passarão a seguir o critério da inflação (IPCA).

Com informações da www.intersindicalcentral.com.br

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