Sessão solene homenageia 80 anos do Banestes, mas contribuição dos empregados fica apagada

Para Sindicato, 80 anos deve ser marco para valorização dos empregados e preservação do banco como patrimônio público

Sindicato esteve presente para defender o Banestes Público e Estadual (Fotos: Sérgio Cardoso)

O Banestes foi homenageado em sessão solene realizada na noite desta segunda-feira, 18, na Assembleia Legislativa do Estado, em comemoração aos 80 anos da instituição financeira.

A fala principal foi do presidente do banco, Michel Sarkis. Em exposição breve, ele resgatou a história do Banestes desde sua fundação, em 1937, ainda como Banco de Crédito Agrícola do Espírito Santo. Falou da ampliação da rede bancária, do processo de digitalização e dos bons indicadores financeiros, que hoje incluem um patrimônio líquido de R$ 1,3 bilhão. Ninguém esperava diferente.  Faltou falar, no entanto, dos empregados – que aliás, lotavam o plenário da Assembleia. Os que constroem no dia a dia os resultados do banco, muitas vezes a custo da própria saúde física e mental, foram superficialmente lembrados, com uma menção tímida.

Sarkis ensaiou uma fala afetiva, falou dos clientes, de como eles têm uma relação especial com o banco e de como a história do Banestes se confunde com a do Espírito Santo. Não colou. Não pelo roteiro do discurso, que era bom. Mas porque Sarkis efetivamente não participou dessa história. Ele insistiu. Por duas vezes, citou o bisavô, responsável pelo projeto arquitetônico do prédio Rural Bank, primeira sede do Banestes, e do relógio da Praça 8, cujo Banestes participará da restauração. Quis demonstrar uma intimidade histórica, como se o seu vínculo com Banestes passasse por gerações familiares.

Mas o roteiro tinha direção e apontava para um lugar específico da mesa: o governador Paulo Hartung, principal homenageado da noite. A ele Sarkis não economizou elogios. O presidente do Banestes ressaltou o processo de recuperação financeira do banco a partir de 2003, pós governo José Ignácio, atribuindo a Hartung os louros de uma profissionalização do banco, que teria passado a atuar com responsabilidade na concessão de crédito na execução das operações.

Nessa hora alguém poderia ter levantado a mão para perguntar: mas e no caso Infinity, onde estava essa responsabilidade? Foi na gestão Paulo Hartung que o Banestes levou um dos maiores calotes da sua história, concretizado recentemente, em julho, quando decretada a falência do Grupo sucroalcooleiro Infinity Bio-Energy, que deixará para o banco cerca de R$ 57 milhões de prejuízo, em valores de 2009. O acordo de concessão de crédito foi fechado com aval de Paulo Hartung, num contrato com várias irregularidades. Mas não era um espaço para perguntas.

Paulo Hartung permaneceu do início ao fim da sessão. Acenava com a cabeça quando era citado, mas não fez qualquer pronunciamento ou saudação aos presentes. Para quem assistia das galerias, na parte superior, era evidente a sensação de desinteresse do governador, que passou a maior parte do tempo mexendo no celular. Era como se a sua ilustre presença já fosse demais para o evento.

Roberto da Cunha Penedo, ex-presidente do Banestes, também compôs a mesa. Para quem vivenciou sua gestão, sua presença no evento foi afrontosa. A gestão de Penedo foi uma das mais autoritárias na relação com os empregados, tendo sido marcada por demissões injustificadas e rompimento do Acordo Coletivo de Trabalho.  O ex-dirigente também foi condenado pelo Tribunal de Justiça por usar indevidamente recursos do banco para pagamento de uma multa, aplicada também a outros dois dirigentes, por não terem comunicado à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) o estudo para que o banco vendesse ações na Bolsa de Valores antes de divulgar o fato à imprensa, em 2007.

Para o Sindicato dos Bancários/ES, os 80 anos do Banestes são sim tempos de celebração. Não fosse a luta dos banestianos, provavelmente essa instituição não mais existiria. Não como banco público e do Espírito Santo, pelo menos. Por isso, esse aniversário serve também para destacar a importância desse banco para os capixabas e a necessidade de preservá-lo como banco público e estadual.

É urgente pensar uma gestão que valorize os empregados e fortaleça o caráter público do Banestes, com todas as suas potencialidades: um banco voltado para o povo capixaba, que seja propulsor de políticas públicas, que ajude no desenvolvimento socioeconômico dos municípios contribuindo para a democratização do acesso ao crédito e para a geração de emprego.

 

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