Terra sem mal: povo Guarani constrói nova aldeia em Aracruz

Ocupação do território, que fortalece a resistência indígena no Estado, envolve recuperação de agrofloresta com tratamento do solo que mistura técnicas agrícolas com reflorestamento

Brevemente 27 famílias Guarani vão viver em terra reconquistada pela etnia em território antes ocupado pelo eucalipto que acendeu a luz vermelha da desertificação no Espírito Santo. “Desde que nos entregaram o território, começamos a fazer mutirões para reformar a terra devastada pela Aracruz Celulose (Fibria)”, conta Marcelo Guarani, educador bilíngue e presidente da Associação Indígena Guarani Três Palmeiras.

A aldeia Nova Esperança, Ka Agui Porã, vem sendo construída em mutirões convocados pelos Guarani e os Tupinikim, etnias resistentes à ocupação não-indígena na região de Aracruz. O Sindibancários/ES compõe o grupo de movimentos sociais, ativistas e acadêmicos que colaboram com a construção da nova aldeia com o acompanhamento e participação de dirigentes e enviando estrutura logística para os mutirões.

“Faz parte da luta da classe trabalhadora integrar as resistências indígenas e potencializá-las. A devolução da terra aos Guarani e aos Tupinikim só foi possível devido a décadas de lutas. Somos solidários”, explica Lucimar Barbosa, diretora do Sindicato.

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A construção da aldeia Nova Esperança passou pela escolha do local que agora vem sendo recuperado pela agrofloresta, tecnologia de tratamento do solo que mistura técnicas agrícolas com reflorestamento. Para tanto, foram selecionadas mudas nativas da Mata Atlântica e frutíferas para compor o conjunto biológico de restauração do terreno.

A recuperação tem sido feita com mudas doadas pelos parceiros e, principalmente, e também s cultivadas nas aldeias em viveiros construídos a partir da aprovação de um projeto local no Projeto Ambiental e Territorial Indígena (GATI). O plantio de mandioca e de milho, culturas caras ao povo Guarani, junto a fruteiras como a banana vão garantir a subsistência da população e produzir excedente para a comercialização na comunidade. O processo de reflorestamento vai possibilitar a recuperação de nascentes devastadas pela monocultura.

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Com o processo de recuperação, os guaranis irão formar corredores ecológicos garantindo a movimentação de animais entre a área de reserva remanescente colada ao território que abriga a nova aldeia.

“Queremos criar condições para viver nessa terra. Só assim vamos preservar e fortalecer a cultura Guarani nessa aldeia e aumentar nossa população. Estamos muito expostos à cultura branca e à violência”, explica Marcelo.

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O ano de 2006 marca a última colheita de eucalipto no local ocupado pela Fibria desde a década de 1960, período em que os eucaliptais começaram a substituir a Mata Atlântica nativa da região com o apoio das forças policiais da ditadura civil militar que exterminou grande parte da população da região.

Entenda o processo de homologação e demarcação das terras

Em 2008 o Ministério da Justiça, ao qual a FUNAI é subordinada, fez decreto reconhecendo as terras indígenas. O decreto foi homologado em 2010 pelo então presidente Lula, pressionado pelos movimentos indigenistas. A escritura das duas terras indígenas foi lavrada em cartório no dia 24 de março de 2015 e entregue às populações no dia 13 de abril do mesmo ano.

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São 18.154,93 hectares de terras indígenas no Espírito Santo, dos povos Tupinikim e Guarani. As terras estão na região de Caieiras Velhas, no município de Aracruz e têm 14.282,79 hectares. Na mesma demarcação, a Justiça devolveu um território de 3.872,14 hectares em Comboios, Linhares. O total de terras devolvidas representa menos da metade dos 40 mil hectares reivindicados pelos indígenas.

No município de Aracruz existem, hoje, dez aldeias indígenas Tupinikim e Guarani, com cerca de 3.800 índios. Deste total, 540 são Guarani, segundo o cacique Marcelo.

Sindicato participa do dia de Resistência Indígena na Aldeia Piraqueaçú

No dia da Resistência Indígena, 19 de abril, o Sindicato foi ao município de Aracruz fortalecer a luta indigenista no Espírito Santo e participar dos festejos realizados na Aldeia Boa Esperança Piraqueaçú. As fotos que ilustram esta matéria, foram feitas pela dirigente sindical Evelyn Flores naquele dia 19.

Com informações do Século Diário.

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